<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770</id><updated>2012-02-06T22:28:31.829Z</updated><title type='text'>As Muralhas do Silêncio</title><subtitle type='html'>A Arte de Contar</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10270004027333633699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_A8MFNq34JL4/Ss2A1yb1VjI/AAAAAAAABF8/jPXtidUhVgw/S220/JAB-59A.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>28</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-3514446736427009522</id><published>2012-02-06T22:16:00.001Z</published><updated>2012-02-06T22:28:31.834Z</updated><title type='text'>O ar irrespirável</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-9WHEBUg5QPs/TzBQ_iN3XPI/AAAAAAAABg8/bBcZIMi0eKI/s1600/lawyer1.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="400" src="http://4.bp.blogspot.com/-9WHEBUg5QPs/TzBQ_iN3XPI/AAAAAAAABg8/bBcZIMi0eKI/s400/lawyer1.jpg" width="397" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sábado de tarde.&lt;br /&gt;Sala após sala, hoje todas vazias.&lt;br /&gt;Fechadas umas, entreabertas outras, as portas dos gabinetes alinhavam-se ao longo do corredor, o dele o último, à esquerda, já houve tempos em que «o senhor doutor, lamento, mas é raro estar aqui, terá de fazer a fineza de marcar». Agora era como se não tivesse mais para onde ir, o estar equivalente a ser encontrável, a oferecer-se, estando, a que o encontrassem.&lt;br /&gt;O Verão chegara antes do tempo, na forma de um fim-de-semana sem gente e de um sol a amarelecer a vida, encarquilhando-lhe os restos, assim se não fechassem nas gelosias as tabuinhas.&lt;br /&gt;Nunca se sabe como se chega a ser o que se é.&lt;br /&gt;Primeiro fora a lenta agonia da profissão, o mal que lhe fazia sofrê-la de dia e odiá-la de noite. Agora, como se tudo não tivesse uma história a intervalar o tempo, a tê-lo poupado ao longo e dorido acto de vivê-la, estava assim, inerte, indiferente de sentimentos, vazio de ideias.&lt;br /&gt;Ficaram-lhe, nas estantes, preciosidades antigas, na forma de livros que tinham caído em desuso, a encadernação como réstia de uma importância agora ilusória. Sentado onde estava, já não conseguia ler-lhes as lombadas, adivinhando-os pelo lugar de onde há tanto tempo não saíam. Nesta tarde, neste sábado de agonia abafada, olhava-os com o gesto contido, o espírito parado, longe dali.&lt;br /&gt;E, no entanto, durante tantos anos, estes livros bafientos agora, mas que já tinham sido novos e úteis e até como colegas prestáveis, tinham sido companhia, enxada, por vezes o desespero. Nalguns anotara mesmo, com caligrafia miúda, apontamentos, tantos em meias folhas de bloco, momentos de interpretação, o exteriorizar de uma dúvida, a extensão de um comentário.&lt;br /&gt;Lembrou então o facto, o que esta história conta.&lt;br /&gt;Talvez tivesse sido também num sábado, ou num domingo de tarde, quando ainda é pior estar-se no escritório fechado, amputada pela clausura a vida e deformado pelo isolamento o ser.&lt;br /&gt;Parecia-lhe hoje tudo tão longínquo que dificilmente conseguia reter na consciência actual ou fixar na memória passada uma data para o que acontecera. Tinham-lhe ficado, porém, impressos no sentir magoado os pormenores do que sucedera, mesmo os mais insignificantes.&lt;br /&gt;Esquecera-se de todo que, na segunda-feira, lhe acabaria, impreterível, o prazo de um dos poucos processos que ainda tinha; pior, o prazo para fazer o que adiara toda a semana, sem vontade, na mira de um halo de resignação que o levasse a sujeitar-se a ter de o fazer.&lt;br /&gt;À força de empurrar para o fundo da memória aquela obrigação insuportável, o espírito, apiedado, fizera com que se esquecesse.&lt;br /&gt;Foi pela hora de almoço que veio ao consciente de si a lembrança.&lt;br /&gt;Por essa altura ainda teria família, almoçava-se muita vez perto de casa, num restaurante que se tornou impossível.&lt;br /&gt;Contrariado, sentara-se, sentindo a agonia do papel em branco, a desesperante falta de vontade.&lt;br /&gt;Começara com o sacramental «Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz de Direito do Tribunal Judicial de» para logo se afligir com o saber a que tribunal se deveria dirigir, entre o labirinto de regras de competências e de conflitos territoriais e o receio de que um engano, com o prazo a acabar, lhe pudesse ser fatal.&lt;br /&gt;Continuou então, linha a linha, o pensamento a escorrer-lhe para o papel, o desconforto de imaginar que já nem tinha quem lhe dactilografasse o que escrevesse.&lt;br /&gt;Foi então que lhe pareceu que alguém batera à porta.&lt;br /&gt;Primeiro, toques tímidos, hesitantes, depois, porque a campainha não funcionava sempre naquele escritório em que, lentamente, tudo deixaria definitivamente de funcionar, um bater mais claro, mais nítido, como se um sou eu familiar, a aflição de um abre-me.&lt;br /&gt;Desperto para um exterior de onde há tanto tempo quase nem o correio lhe chegava, deu consigo, os passos abafados pelo velho tapete, corredor afora, num «já vou, por favor espere», em que só a vergonha escondia a súplica murmurada do «não se vá» e a alegria gritada do «é para mim!».&lt;br /&gt;Era de facto.&lt;br /&gt;Morava na mesma rua, do outro lado do passeio, num andar de um prédio gémeo, dos que viram ainda passar carroças de lavadeiras e amoladores galegos, a roda de afiar e os cortadores de gaforinas ao domicílio, corte curta a franjinha que é para mais durar.&lt;br /&gt;Sabia-o advogado, desde há muitos anos, vira-o no ir e vir afadigado dos tempos em que tinha pressa.&lt;br /&gt;Assistira à sucessão dos seus automóveis, conhecia-lhe, como se fosse o seu, o guarda-roupa, a sucessão primeiro de roupa nova em cada estação, o estabilizar, enfim, no velho sobretudo, os sapatos amassados nos pés timoratos do caminhar miúdo.&lt;br /&gt;Vizinha, partilhara o prédio e suas rendas com uma irmã, solteira como ela, anos a fio e com ele uns quantos outros espalhados, nem ao menos em propriedade horizontal, por essa Lisboa em ruínas, na Madragoa um, o mais antigo, em que uma mercearia caduca era o que sobejava de arrendável, no Alto do Pina outro, cedido, sem contrato sequer, a uma garagem de recolhas que outrora ainda fora de reparações até que o mecânico se reformara e o filho do dono se resolvera a arrendar o espaço como armazém de estacionamento.&lt;br /&gt;Era a vida imobiliária que a trazia ali.&lt;br /&gt;Lentamente, ano após ano, a doença da irmã, primeiro atirando-a para o desatino doméstico das atitudes incompreensíveis e depois para um lar, nas Avenidas Novas, onde foi encontrada sem sentidos num dia anónimo em que chovia, haviam feito dela o último ramo subsistente da família e a única herdeira da fortuna por dividir; mas uma fortuna em ruínas, prédios entaipados e esvaziados de uso, alguns só em paredes, como muros altos de matagais imensos e coito de vadios e indigentes sem casa e outros animais rastejantes.&lt;br /&gt;Tratava-se de conseguir, por entre os labirintos da burocracia, evitando os alçapões do Direito, tornar aquele museu paleolítico, verdadeira pedreira urbana que em tempos tinha sido pequenos palacetes e geminadas moradias, algo de rentável, que vendido ao menos ao desbarato desse dinheiro para uma vida decente que a tirasse daquele envergonhado remedeio, recordações antigas como única companhia.&lt;br /&gt;Negócio promissor, encontrara enfim, nos últimos dias, a solução milagrosa que a penúria lhe não permitia, na forma de um atrevido promotor que de tudo faria habitação de luxo e condomínio fechado para gente ansiosa de viver bem e temerosa de viver em insegurança.&lt;br /&gt;«E em que posso ser-lhe útil», arriscou, uma bruxuleante luz a acender-se-lhe nos olhos, o velho advogado, vendo surgir-lhe ali, enfim, para os últimos anos da vida, um trabalho capaz que o devolvesse às lides, ao menos ocupação do tempo que o fizesse sentir-se um homem útil, rendimento valioso que lhe permitisse outra vez um viver desafogado.&lt;br /&gt;Porque, tal como a criatura que aquele sábado de tarde lhe trouxera, como se o piedoso destino tivesse girado em seu favor a roda da fortuna, também ele era um emparedado pelos escombros do que amealhara. &lt;br /&gt;Soterrado em livros que eram a arqueologia de um Direito que o tempo tornara caduco, arquivo abarrotado de processos que haviam passado de vez para o rol dos casos findos, a memória esfrangalhada de histórias de gente que já nem vivia para as poder contar.&lt;br /&gt;Todos os casos em que se envolvera, os processos em que litigara, os acordos que conseguira firmar, o mais insuportável cliente e o mais rebaixado colega, a galeria dos seus horrores parecia ter-se convocado para aquela saleta poeirenta, que a luz do sol tentava abocanhar com hálito quente e devorador.&lt;br /&gt;«Desculpe-me, não sei se serei oportuna, ainda por cima ao fim de semana», rápida a voz, prático o espírito, «obrigado, mas não vale a pena sentar-me, é rápido».&lt;br /&gt;E de facto era: parte do negócio envolvia a venda do prédio onde estava aquele escritório, a demolição, o despejo certo, o ter de negociar com os novos senhorios, gente difícil, «desculpe-me mas compreende não é? Não temos outra alternativa e na sua idade também trabalho já não terá muito».&lt;br /&gt;O estertor do silêncio deu o sinal da compreensão. A vida encarregara-se de resolver.&lt;br /&gt;Saiu, tímida, hesitante, uma possível última frase por dizer, o advogado gentil a acompanhá-la à porta, mas enfim recomposta, a figura, a pose, a postura, adejando como liberta e de novo retornada aos tempos áureos, talvez mais nova não sem um «que calor está aqui, estes reposteiros não lhe tornam o ar irrespirável?».&lt;br /&gt;No dia seguinte encontraram-no enforcado, a língua ridícula de grossa, o corpo a defecar-se, imundo e triste.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-3514446736427009522?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/3514446736427009522'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/3514446736427009522'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2012/02/o-ar-irrespiravel.html' title='O ar irrespirável'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04958970604904404916</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/StnoYUEKJyI/AAAAAAAAAJo/s7zZPLEYW80/S220/JAB-59A.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-9WHEBUg5QPs/TzBQ_iN3XPI/AAAAAAAABg8/bBcZIMi0eKI/s72-c/lawyer1.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-3258732563602199892</id><published>2011-12-04T10:21:00.000Z</published><updated>2011-12-04T10:21:08.555Z</updated><title type='text'>A renascença do ser</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-n1HNlWJY8_Q/TttIiD_zawI/AAAAAAAABJw/puUagaEiyNE/s1600/m%25C3%25A3os.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="286" src="http://3.bp.blogspot.com/-n1HNlWJY8_Q/TttIiD_zawI/AAAAAAAABJw/puUagaEiyNE/s400/m%25C3%25A3os.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span id="goog_350957691"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span id="goog_350957692"&gt;&lt;/span&gt;É&amp;nbsp; este o dia em que pela madrugada se comemorou o aniversário do teu início, em que uma mão invisível deu a mão à tua mão, vinda do sono profundo, trazida à sensação por um despertar mágico à hora certa.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Este é o dia em que silenciosamente sentes na tua mão a mão que guias e que sem ti se perderia.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Serão estes todos os dias do íntimo abraço feito de mão dada de eternos namorados, enlaçados, a perderem-se na distância do futuro comum, na penumbra refrescante da manhã do sonho, banhados pelo sol quente da tarde de amor, seguidos pela prole que será futuro, certos da renascença dos seus seres, no assim sucessivamente da perpétua renovação.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Hoje, dia 4 de Dezembro do ano primeiro, parabéns à Vida e o que Vida trouxe.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-3258732563602199892?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/3258732563602199892'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/3258732563602199892'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2011/12/renascenca-do-ser.html' title='A renascença do ser'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04958970604904404916</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/StnoYUEKJyI/AAAAAAAAAJo/s7zZPLEYW80/S220/JAB-59A.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-n1HNlWJY8_Q/TttIiD_zawI/AAAAAAAABJw/puUagaEiyNE/s72-c/m%25C3%25A3os.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-1138347875737306933</id><published>2011-11-19T18:27:00.000Z</published><updated>2011-11-19T18:27:49.756Z</updated><title type='text'>Les jeux sont faits</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-swf6XOPY45I/Tsf075dbBvI/AAAAAAAABCc/UJUdDZSgV2E/s1600/Casino+the+table.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="198" src="http://3.bp.blogspot.com/-swf6XOPY45I/Tsf075dbBvI/AAAAAAAABCc/UJUdDZSgV2E/s400/Casino+the+table.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Talvez fosse o brilho gorduroso da testa reflectido no bojo metálico da feérica máquina que o ladeava, rolando frutos e tlins, ou o sapato esquerdo mordendo-lhe o pé para lembrar que esse era maior do que o outro, desde pequenino. Ou o vago cheiro acre, exaurido o desodorizante, meio perfume barato impregnado em lânguidas carnes, disponíveis. Talvez fosse cada uma das minudências remanescentes daquela hora sombria em que os corpos são vultos e as vozes sussuros. O ronronar sonolento do ar condicionado, enfim audível na silenciosa noite e o tilintar de moedas caindo num chuveiro de estridente alegria. Ou o duvidoso olhar injectado de promessas entumescentes de uma qualquer apátrida de aluguer e já sobravam poucas, os táxis a esvairem-nas para quartos de turno rápido, aviando ilusões.&lt;br /&gt;Talvez fosse isso tudo e as olheiras do croupier. Àquela hora em que já só ficam os que terão de sair sozinhos, restava o que o vício deixa para trás, passadas as enganadoras luzes do entusiasmo.&lt;br /&gt;Foi então que ela entrou. Esfrangalhava-se para um dos lados, como mulher que perde do sapato um salto, e era mulher e em altíssimos saltos, um mundo em fêmea alçado em palafitas. Apostava essa noite a melhor das suas sortes. Regressara ao campo de batalha em que os amores se jogam a dados, as paixões ao azar de uma roleta. Faltava-lhe agora quem a escoltasse, o precário companheiro ou o permanente marido, contrastante em magreza e superlativo em ademanes, arauto e pregoeiro, rebocador na hora de recolher, o hálito turvo, os olhos marejados de sombras. &lt;br /&gt;Sentado no seu canto, empinado na sua girafa, as pernas em arco, ele olhou-a, reconhecendo-lhe anos de distância e a razão da ausência. Estavam gastos. Talvez fosse o cabelo queimado à força de tintas, o seio tombado à força do seu peso. Talvez fosse a vida devorar a beleza cuspindo os caroços da fealdade. Não sabia.  Soube sim que apostou tudo o que tinha essa noite, o corpo e a alma, a memória e a imaginação. No tapete verde do desejo, esgotaram-se-lhe as fichas. Ao saírem, a menina do bengaleiro fez de conta que aquele instante não existia. As luzes apagavam-se, mortiças, preparando-se para a sonolência tardia, na esperança do dia seguinte e para a monotonia do igual.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-1138347875737306933?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/1138347875737306933'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/1138347875737306933'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2011/11/les-jeux-sont-faits.html' title='Les jeux sont faits'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04958970604904404916</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/StnoYUEKJyI/AAAAAAAAAJo/s7zZPLEYW80/S220/JAB-59A.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-swf6XOPY45I/Tsf075dbBvI/AAAAAAAABCc/UJUdDZSgV2E/s72-c/Casino+the+table.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-8628264410302025044</id><published>2011-06-27T23:25:00.002+01:00</published><updated>2011-06-27T23:36:29.899+01:00</updated><title type='text'>A rude mão</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-z7KulXJ-1sc/TgkCycCQTPI/AAAAAAAAAwo/WzP285WMlQI/s1600/bookseller.png" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="408" src="http://1.bp.blogspot.com/-z7KulXJ-1sc/TgkCycCQTPI/AAAAAAAAAwo/WzP285WMlQI/s640/bookseller.png" width="640" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O homem vendia livros na impossibilidade de dar livros e por imaginar-se a escrever livros. E naquela folha enrugada aplicava com toda a persistência e minúcia o melhor da palma da sua mão para tentar alisá-la como com quer ao mundo retirar imperfeição ou a um semblante velho a geografia estriada de uma vida e seus vincos de expressão.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Talvez fosse aquela folha e não outra qualquer o objecto necessário do seu aplicado esforço, porque visto do umbral da porta, curvado, a tudo alheio e ao resto indiferente o homem que vendia livros parecia não ter outro mundo ou diversa preocupação. Estava absorto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Na sua vida haviam-se multiplicado o sucesso de insignificâncias e suas derrotas. Naquela noite deixara-se ficar até mais tarde, sem se aperceber do alvorecer da iluminação pública, nem do sombrear do cúbiculo de que fazia escritório.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Foi o tinir de uma sineta que lhe despertou os olhos, não a mão mecânica e seu gesto de afago sobre a enrugada folha e seus irregulares sulcos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A história possível a partir daqui pode ser uma de tantas histórias possíveis.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quem tem como cena este cenário e como personagem esta criatura não precisa sequer saber quem entra naquele lugar onde a vida se pode exprimir, nem o que sucede.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pode a história ser a da tristeza de um precioso livro desfeiteado por rude mão ou descuidada. Ou pode na história o enrugado da folha não ter outra importância que a de ser o acaso do qualquer coisa serve e surgir agora e só então a essência da narrativa e seu conteúdo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Qualquer possibilidade é possível às mãos de quem escreve. Naquela noite ao entrar na reduzida livraria, olhando o homem, inventei-o, ali, franqueada a porta,&amp;nbsp;a partir do gesto e do que se lhe poderia seguir. Ao chegar a casa teria uma história para contar não fosse ter-me esquecido do que, enrugadamente, se me amarrotou na cabeça dorida de um corpo ensonado. Penso tê-lo encontrado hoje amarrotando lixo em que se tornaram os livros que nunca escreveu e que nunca encontraram quem os quisesse.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-8628264410302025044?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/8628264410302025044'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/8628264410302025044'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2011/06/rude-mao.html' title='A rude mão'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04958970604904404916</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/StnoYUEKJyI/AAAAAAAAAJo/s7zZPLEYW80/S220/JAB-59A.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-z7KulXJ-1sc/TgkCycCQTPI/AAAAAAAAAwo/WzP285WMlQI/s72-c/bookseller.png' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-3816594867486925858</id><published>2011-01-14T01:55:00.002Z</published><updated>2011-01-14T02:10:07.499Z</updated><title type='text'>A visitação da noite</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/TS-snX1ZiSI/AAAAAAAAAvE/lIil13p5log/s1600/pantheon.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="298" n4="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/TS-snX1ZiSI/AAAAAAAAAvE/lIil13p5log/s400/pantheon.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Poderia ter sido o amor fulgurante, rompante súbito a implodir no coração e fazer ressaltar nos sentidos a ânsia. Ou o amor manso, ternura a sobrepor-se à pele como uma macia outra pele.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Poderia ter sido num caso a violência da paixão e seu arroubo, poderia ter sido no outro a mansidão do carinho e suas carícias.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Poderia ter sido uma longa amizade a tornar indispensável a companhia, ou uma carência a tornar necessária uma presença.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Poderia ter sido cada uma destas ou todas elas, no acaso de um momento.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sempre o amor seria, porém, um outro mundo, evanescente, a flagrância do instante e sua cegueira, a essência perfumada e sua hipnose.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Poderia ter sido fome de corpo ou vontade de alma. Poderia ter sido todo o possível e o impossível. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Imperceptível, mesmo pelos que amam, poderia ser o desejo de ter nascido para te dar toda a vida vivida, descontado o sofrimento, mas não seria vida mas ilusão.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Excluídos todos os condicionais de todos os amores amados, todos os futuros de todos os amores que se amarão, como este é o amor presente como a estranha geometria do eterno sem fim, a insólita aritmética da perpétua indivisão!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No dia em que, esgotado o cosmos, ressurgir o primeiro sol, ele brilhará. A primeira lua será o&amp;nbsp;ressurgir do seu resplandecente luar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Surgido com a primeira lágrima, surgiu com o primeiro sorriso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A ser a totalidade sempre seria a individualidade da infinitésima partícula e é. Esgotado o mundo ele seria o acto de renascer e eis-nos soerguidos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Na visitação da noite, no fluir húmido de todas as rosas do teu corpo ele é o apogeu do primeiro homem e sua primeira mulher. Na entrega de cada acto ele é o desmaio da primeira vez, a primeira mão dada, o primeiro beijo, o primeiro olhar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No mundo em que nada existisse ele seria, sendo, a essência e a possibilidade de tudo quanto vive, um amar como não sei e com tudo o que nunca soube.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-3816594867486925858?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/3816594867486925858'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/3816594867486925858'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2011/01/visitacao-da-noite.html' title='A visitação da noite'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04958970604904404916</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/StnoYUEKJyI/AAAAAAAAAJo/s7zZPLEYW80/S220/JAB-59A.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/TS-snX1ZiSI/AAAAAAAAAvE/lIil13p5log/s72-c/pantheon.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-6556036290058398150</id><published>2011-01-08T13:06:00.001Z</published><updated>2011-01-09T02:03:50.234Z</updated><title type='text'>O incómodo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Havia dias em que se&amp;nbsp;sentava, aninhada, deixando desfilar pela sua mente cenas sobre o que tinha sido a sua vida. Cenas confusas, porque nada era nítido nem claro, imagens desfocadas, amalgamadas na sua sequência, atropelando-se, imparáveis ao sucederem-se, em aceleração constante, mais depressa, cada vez mais depressa. Cenas confusas, porque as que eram verdade do seu passado breve se misturavam, indistintas, com as que eram a fantasia do que gostaria que tivesse sucedido. Sentada na sua cama, escondida no seu quarto, sem cidade nem gente, sem si.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Foi assim que lhe surgiu a bicicleta, que em garota tanto desejara, e na qual voava agora, veloz, velocipedicamente feliz de tão contente, infantil e ria, o mundo de todos os outros sempre para trás, pedalando de deixando-se ir, o duro selim sentido ali e as pernas a cansarem-se, abandonadas, mesmo quando a corrente um dia se soltara, escorregadia de oleada, para se ensarilhara no pedal, conspurcando-lhe as mãos de modo tão real que ainda hoje o sentia, persistente e viscoso, como uma nódoa que lhe manchasse a existência.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Dias houve em que a possibilidade da bicicleta se tornara na impossibilidade de voltar a vivê-la como a sentira nesse tempo passado de promessas de vida em que o mundo lhe parecia o território de todas as eventualidades. E&amp;nbsp;o corpo ausente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sofrendo essa indeterminação do presente e essa indiferenciação do passado, todo o tempo lhe parecia tempo futuro, todo o espaço pátria de devaneio.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Imaginou-se assim, a supor a vida como uma contínua antecipação, a visionar-se como uma intérprete que representasse a personagem de que era a figurante, tímida, hesitante, em constante espanto, espanto contraído por não haver surpresa diante do adivinhável que afinal se adivinha, mundo em que a biografia é como uma necrologia a precipitar-se no jornal que só o próprio lê, condoído de si.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Assim eram alguns dias recônditos de hesitante sol, dias de dormência e de sorriso, dias de visitação de doçura e de afago despontante, dias de atrevimento esconso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas hoje chovia, chuva pertinaz, convicta, feita do acto de chover muito e muitas vezes e quase sem excepção, o céu povoado de ofensivas nuvens, aziagas nos seus presságios de relâmpagos, em que se liam azares e sortilégios, a ribombar descompassado o coração, e bátegas de malignidade, cruas como pontapés.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Foi aí que o viu, não pelo aproximar que a previniria, mas no próprio instante pavoroso em que o sentiu, ele e o seu peito, ele e o seu arfar, o hálito e os dentes, o pulsar vital e o abocanhá-la, a mão aprisionada, o suar e o arrepiar-se, fria, já não era ela ou outro mas uma alteridade estranha, estrangeira, que a dominava, subjugando-a, fazendo-a sucumbir, como se os intestinos se lhe revirassem e tudo quanto são entranhas e vísceras e o tumulto interior que são as catacumbas do corpo. Tremendo sonho, retesava-se num esgar de dores e de rejeição.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um fio de água gelada escorria-lhe do cabelo, afundando-se pelo rosto, sucessivamente mais fria, o peito a eriçar-se de tão álgido, cortante, intimamente jorrado, liquefazendo-se a ensopar-se, escorrendo incomodidade e vergonha.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Vindo&amp;nbsp;de si, como um choro contido num murmúrio, um clamor aflito, a chamar por socorro, uma revolta contra o mundo todo e contra aquilo em que se tornara, um fio imperceptível de vida conhecia, enfim, a sua existência, ungindo-a em sagração primaveril. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sangrava pela primeira vez a inundície lodosa que a fazia mulher, nascia consigo a repelência&amp;nbsp;que se&amp;nbsp;tornaria o modo como não se reconheceria jamais em qualquer galanteio, o cinismo ácido com que receberia todos os adjectivos amáveis da língua simpática dos habitantes das terras da cortesia, os agraciadores indiferentes, os cortejadores amáveis. Repugnava-se de si mesma e do medo lunar do improvável momento.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Naquele dia impedir-se-ia de voar na sua bicicleta para não desobedecer às conveniências.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A Natureza sujara-a durante o sono, como a um palhaço a pintura, o rosto ridicularizado, menina a julgar-se feia, a boca sanguinolenta de tão vermelha, inchada de tão grotesca, o corpo o arrendondar-se de desejos e suas dores.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-6556036290058398150?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/6556036290058398150'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/6556036290058398150'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2011/01/o-incomodo.html' title='O incómodo'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04958970604904404916</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/StnoYUEKJyI/AAAAAAAAAJo/s7zZPLEYW80/S220/JAB-59A.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-1663368528087838258</id><published>2010-09-19T00:16:00.002+01:00</published><updated>2010-09-19T00:34:28.189+01:00</updated><title type='text'>A história de uma vaga sensação</title><content type='html'>E uma sensação de nostalgia invade o éter&lt;br /&gt;Se o éter existe&lt;br /&gt;E com ele o ronronar dos pés dormentes&lt;br /&gt;e o mundo a ir-se&lt;br /&gt;fluidamente;&lt;br /&gt;e aquele pensamento&lt;br /&gt;incómodo e reiterativo,&lt;br /&gt;porque obsessão,&lt;br /&gt;onde estarão as chaves do carro&lt;br /&gt;e o próprio carro&lt;br /&gt;e se eu não voltar aqui&lt;br /&gt;para um mundo onde possa haver&lt;br /&gt;a dormida esperança&lt;br /&gt;e a dormente ilusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E uma sensação de enfermagem&lt;br /&gt;e da inutilidade do órgão&lt;br /&gt;a dispensabilidade da função&lt;br /&gt;a urgência do acto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte evaporara-se&lt;br /&gt;Para a terra do coisíssima nenhuma&lt;br /&gt;Se o a nada existe e com ele os pés enfim adormecidos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-1663368528087838258?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/1663368528087838258'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/1663368528087838258'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2010/09/historia-de-uma-vaga-sensacao.html' title='A história de uma vaga sensação'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04958970604904404916</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/StnoYUEKJyI/AAAAAAAAAJo/s7zZPLEYW80/S220/JAB-59A.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-5068087976647278766</id><published>2010-08-12T17:34:00.003+01:00</published><updated>2010-08-12T17:42:07.155+01:00</updated><title type='text'>A personagem</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Escrevia-os em improvisados papelinhos&amp;nbsp;e entregava-os a quem fosse por causa da inesperada paixão. E livros seus que se imprimiram na tipografia económica, revistos ali mesmo, na velha mesa ao lado da caixa dos tipos de caixa alta e caixa baixa, a corpo oito e a corpo doze «não escreva a Times porque isso poupa papel mas cansa os olhos do leitor maçado» e desses livros sabe-se pouco porque nem eram muitos, «baixe a tiragem e poupe nas sobras». &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E distribuía-os, mão a mão, percursos orgulhosos a pé,&amp;nbsp;na ânsia de os conseguir vender e recolhia-os depois, envergonhadamente invendáveis. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por atrevimento de carácter primeiro, por carência de afecto depois, fazia-os chegar aos amigos, o olhar ansioso de cão por festa, julgando que ao menos assim&amp;nbsp;apreciassem&amp;nbsp;quanto escrevia, discurso indirecto de gostarem da sua pessoa. Via-se na compulsividade do gesto a expectativa de um aceno. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um dia surgiu-lhe assassina a dúvida quanto a saber se gostar seria bastante. Quem o leu tomou-o pela seriedade filosófica da questão que era, afinal, um apelo de alma vindo do mais longínquo da sua pessoa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Iniciou-se então a obra que passou a ser a de uma outra personagem. Esgotado de esperar, deixara de ser o escrito tentando ser o escritor.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-5068087976647278766?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/5068087976647278766'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/5068087976647278766'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2010/08/personagem.html' title='A personagem'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04958970604904404916</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/StnoYUEKJyI/AAAAAAAAAJo/s7zZPLEYW80/S220/JAB-59A.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-2649111727346196091</id><published>2010-06-27T20:36:00.001+01:00</published><updated>2010-06-27T20:36:51.871+01:00</updated><title type='text'>Não te esqueças do meu isqueiro</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/TCeoEQKE2yI/AAAAAAAAAq0/dnyo1LeF-pg/s1600/Boa+Hora.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="266" ru="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/TCeoEQKE2yI/AAAAAAAAAq0/dnyo1LeF-pg/s400/Boa+Hora.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Uma peça em três actos, escrita por José António Barreiros&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;[representada no dia 21 de Maio de 2009 no pátio do &lt;em&gt;Tribunal da Boa-Hora&lt;/em&gt; pelos actores Jorge Sequerra e José Neto, da companhia teatral&amp;nbsp;&lt;em&gt;A Barraca&lt;/em&gt;]&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A, vinte anos, jeans e camisola, um recém-chegado à justiça.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B, quarenta anos, vestido com alguma elegância, fato e colete, mas um toque de ridículo, velho frequentador dos tribunais.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A decoração é a de um calabouço. Mobila-o um catre, um balde. Ao fundo uma parede com uma porta baixa encimada por uma grade. As paredes estão cheias de inscrições. A está agachado no catre, B entra pela porta do fundo. O tom inicial, lúgubre muda rápido para histriónico.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;I ACTO&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A, sentado, debruçado sobre si, lamenta-se; na cena seguinte entra B por uma porta do fundo e inicia-se um diálogo entre ambos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: [respiração ofegante, ladainha de lamúria]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B [entrando, como se de rompante, por uma pequena porta e depois de uma pequena pausa]: apresenta-se um ilusionista ao seu serviço…um…mas isto agora vai com choradeiras?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[Pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B [olhando fixamente para A depois de lhe soerguer lentamente o queixo]: mas tu não falas? [pausa] Perdeste a língua, puto? [mira-o e olha para a assistência] Olha, perdeu! Logo aqui…numa casa de tanto palavrear! [pausa. A está profundamente abatido]. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A [faz com a mão um gesto sacudido, de repúdio]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B [após um longo silêncio, abanando a cabeça, reprovador]: Estás murcho! Já vi! Pato mudo. Vais lindo! Lindo mesmo! Vai lá para cima assim e vais ver! Depenam-te! Em água fria!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A [olhos esgazeados]: lá para cima? O senhor disse lá para cima?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: sim lá para cima, que mais em baixo não podes estar, pá! Ou que julgas? Isto quando se entra aqui no buraco depois é sempre a subir, a longa escadaria em que te inicias na arte de caminhar [faz com a mão um arco de objecto a subir]. Sempre. [sibila]. Sempre! Ou nunca ouviste falar nos tribunais superiores? [soletra a palavra; ri-se].&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[Pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: nunca ouviste, está visto! Nunca passaste das primeiras instâncias. É da idade! [pausa; vira-se para a assistência]. Só pode. Coitadito! E pode pouco.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: não ouvi não [abatido], nem quero ouvir. Deixe-me.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: também serve, puto, também serve. Vai dar ao mesmo. Não é por se conhecer melhor estes labirintos que um tipo se safa aos escaninhos, jardins de plantas venenosas. [ar professoral] Olha com o meu advogado foi o mesmo. Sabia tudo direitinho, até a excepção do caso julgado. E, estás a ver, safei-me à alteração não substancial mas apanhei cinco anos. Agora, cá estou de novo! Nem sei porquê. Mas para o caso tanto monta. Foi tudo anulado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[Pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B [para o público]: …que este patinho ainda vai ter muito que sofrer. Muito mesmo. Tanto...é uma espécie de tristeza a dias, a esfregar escadas na rua suja…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: o senhor sabe que horas são?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: horas? Mas porquê? Estás com pressa? [ri-se] Tens onde ir, é?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[Pausa. A fecha-se].&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: pronto, vá, puto, não te piques, pá. Se um tipo não descontrai, é pior, gaita. Ou pensas que aqui há paciência para doridos? Dói a todos, queres o quê? Vem para aí besuntado de melindres que vais ver para onde te vão os ossos. Vá, são quase duas. Quase duas da tarde. Lá pelas seis estás feito [vira-se para o público]. Completamente feito [volta a olhar para A]. Isso se não te adiarem.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A [atónito]: adiarem?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: olha este! Adiarem pois. Ou julgas que isto também não vive de adiamentos? Faz-se um, adiam-se outros, é assim. Depois vêm os recursos e adia-se tudo. É como a morte. Vai-se adiando. A diferença é que aqui às vezes é sine die.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: mas se o meu já foi adiado... Da outra vez nem cheguei a sair do estabelecimento.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: pois, melhor ainda. Já não estranhas. E vais descontando, puto. No final custa-te menos. [pausa] Ou pensas que te livras assim? Isto leva o seu tempo, amigo. O tempo é a chave desta coisa. Tempo! Tempo! Muito tempo mesmo…aprende a usufruir o grande vazio do nada e o ritual do quase nada! É uma arte para quem não tem para onde ir, saber andar obliquando&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[Pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: pois é assim, miúdo. Duas horas! Horas! Horas nas boas horas! [olha-o fixamente]. Não te ris? Não, já vi… Mas olha, não te preocupes com as horas. Que em vez de uma balança deviam pôr um relógio nos tribunais. Um relógio como nos caminhos-de-ferro. Uma espécie de fita métrica a medir as horas na Boa-Hora. Não… espera, um cronómetro. O símbolo do aguenta. [pausado] Espera mais… melhor ainda, uma ampulheta. [cantarola] Grão a grão. Areia, areia, faz-se a duna. A duna, puto…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: a duna?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: precisamente. A duna. Miragens, muitas miragens, mirabolantes, que é o que há mais aqui, e areia, um grão de areia na engrenagem [ri-se, desconexo]. Mas tudo com calma. [fala lentamente]. Muita calma. Não há pressa, aliás no deserto não há sequer para onde ir. No deserto não se sai nunca do deserto. É isso. Acabou-se a pressa. O tempo é grande, indefinido, incerto. Só o espaço é curto. Muito curto. Confinado, acanhado, exíguo, mas espaço [enfático]. Isto é que é falar bem, puto! [vira-se, trespassando-o com o olhar] Olha, que tal a ramona? Aconchegadinha, não? [meiguinho] Como a barriguinha da mamã? [Cínico] Ou como o quarto escuro, quando te punham de castigo [longínquo, fala para o céu]...de castigo! Crime e castigo! [olha-o; ri-se, voz melíflua]. Está prontinho para o castigo? Para o tautau?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[Pausa. Escurece a cena].&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[A e B de pé. A de costas para B]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[Pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: o senhor está aqui por quê?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: por nada! Por estar cansado do Inverno!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[Pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: por nada, pois. E tu, puto, calculo que por nada também! Deves ter como eu fome de sol!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: por nada, não! Fui burlado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: burlado? Ah! E estás dentro? Fantástico!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: sim. Estou dentro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[Pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: é pá, puto, explica lá melhor, que essa não entra, aqui.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: foi a bófia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: a bófia…? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: sim a bófia. Enganaram-me. Julgava que era um cliente à séria e olha saiu-me um…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B [ênfase]: ah! Um infiltrado?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[Pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: um provocador?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: sim, disso.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: enganou-te?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: sim!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: [melífluo] bandido! Isto já nem há moral neste mundo. [Cínico] Pagou ao menos?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: pagou, mas agora ficaram-me com a massa e com a droga.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: e isso não é crime?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: pois é. Uma burla.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: eh puto, queixa-te dos gajos. Ou te ficam com a droga… ou com a massa. Ou não há gente engavetada por menos?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: acha?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: não acho. [enfático] Tenho a certeza. Só não é assim porque há Direito mas não há moral [melífluo]. São restos amolecidos do país. Sobejos! A enganarem o menino. Onde é que já se viu. Safados…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: mas vender droga também não é muito moral…!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: nem comprá-la, e o gajo comprou-ta. Homessa! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: mas enganou-me…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: ora aí está o ponto. Engana-te, palma-te a droga e mais a massa e és tu quem vais de cana. Lindo, não é? É uma inconsciência de vida…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: já nem sei. Já nem sei mesmo, acredite!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B [virando-se para a assistência, em segredo, a meia-voz]: já nem sabe. Prontinho de todo. Este está prontinho de todo. Baralhado, que já nem sei. Mais um pouco e está condenado…antes mesmo da sentença. Acontece a todos: deixam de perceber que não têm razão e qualquer razão lhes passa a servir. Vão pelo cano abaixo. De esgoto. Condenam-se antes de alguém os condenar. De repente há um que sai absolvido [ri-se cinicamente] &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B [voltando-se para A]: olha lá e tu papas do que vendes?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: como?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: como? Se comes, pá? Grande tanso! Consomes ou vendes só? És o rei do tesouro fabuloso ou o dono da cobra que o guarda? A ambição é e picada mortal!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: consumir, eu? Não. Está maluco ou quê? Eu não percebo o que o senhor diz!..&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B [mudando de semblante, agora sombrio]: não, não estou, maluco, meu sacana e tu o que não percebes, cala-te! Só fala quem chegou à idade de dizer! Sei o que é desgraça dessa porra! Tenho-a lá em casa…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: graças a gajos como tu, que nem consomem ao menos o lixo que vendem! Gajos como tu que vivem da química da destruição! Fazes comércio com o Inferno!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: como eu, uma ova! Só compra quem quer! E eu não obrigo ninguém a comprar!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: não obrigas, não! Mas exploras o vício, parasitas à conta dele! E olha a ver se te vicias! Se te apanham na rede em que fazes cair tanta gente! Tu és o que está sempre de fora, sempre aquém!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: olhe lá, deixe-se disso. Não tenho nada a ver com a desgraça que vai lá na sua casa!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B [subitamente enraivecido, chegando-se a A e filando-o]: tu não me fales na minha casa, cão! Que eu não to admito, ouviste! Já me basta o chumbo da miséria! Safados da tua espécie são a desgraça de muita gente… [larga-o]. E eu sei o que tenho de viver! Tu e os que se multiplicam contigo, tudo isso, como uma só coisa, como uma só serpente feita de muitas serpentes…abre-se-vos a porta e eis o caos!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A [sacudindo-se, como se a limpar o pó da roupa e a falar sozinho]: olha, querem ver lá este! Armado em moralista, agora. Um gajo que vive a enganar as pessoas…agora a dar lições! Eu ao menos não engano ninguém! Ainda dou consolo à dor de muita gente, o que é tu queres, ó falinhas?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: falinhas?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: o senhor desculpe-me! Mas irritou-me estar a insultar. Eu não lhe perguntei pela sua vida… e eu trafico por necessidade!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: vai lá cima contar essa, vai! Sais com o pêlo rente…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: pensa que a desgraça é só para uns?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B [pesado]: não, não penso. Acho que vocês estão todos com trampa até ao pescoço! Já ninguém se salva. Virem aqui ou não é-vos igual. Condenarem-vos é apenas para se dizer que parece mal. Vocês só servem para gastar dinheiro. Já não há ressurreição possível para quem está tão morto que perdeu a capacidade de nascer. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: mas o senhor não me disse, afinal, que horas são!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: meia-noite em ponto, Cinderela. Hora de andar descalço, livre do peso dos metais! Ah! Excepto a grilheta, o arrastar da grilheta, espécie de cão [ri-se]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[escurece a cena]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: bom, mas deixemos isso, morto que não ressurges. Mal ou bem estamos na mesma carruagem, não é? Para o mesmo destino…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: mas diga lá o senhor, vá, está aqui porquê?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: olha… a mania de ser original! Sabes o que é o homem da bomba que estica o rastilho? Sou eu! É um artista do bum e vais pelos ares com o seu engenho! Pum! Perverso, não é?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: não estou a perceber…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: nem tens que perceber! Perceberás um dia, deixa agora. Aliás pouco importa a minha história. Há tanta história neste lugar… estes muros escorrem histórias. São histórias, histórias, histórias, são a História disto tudo, a História Invisível deste lugar, que aprendes tacteando nestas paredes. Só tu, desgraçado, é que nem história tens. A tua é a tanga igual a tantas outras. Coitado de quem tiver que te gramar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: dito assim até faz medo…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: sim, medo! Medo mesmo! Como o segredo guardado no interior hermético da garrafa negra! E sabes porquê? Porque no fim torna-se tudo igual, monótono, supinamente aborrecido. É um lugar maldito, este. Amaldiçoado. Quem anda por cá já topa toda a malta de cor. Ainda por cima são todos inocentes como tu, amarrados aos cordão nodoso da esperança de salvação! Tu és apenas uma gavinha nesta árvore frondosa. Tipos como tu não deitam raízes ao chão, quebram-se de um golpe. De misericórdia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: não me goze. Eu não sou inocente, não quero é ser culpado!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: pois tens razão. És cá dos meus! Não quero que culpem a minha não inocência! Agora é que tiveste uma tirada de mestre! Nunca pensaste ir para advogado com uma conversa dessas?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: eu? Está a gozar comigo. Mas olhe, se isto está endemoninhado, talvez chegando-lhe fogo…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: fogo? tão ruim que é não arde! Ardeu o Chiado, ardeu a Inquisição ali ao Rossio, isto não. Está carregado de maldade…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: e porque não arde?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: Sei lá. São só pedras. Pedras, e as perdas não ardem. [Vira-se para a assistência] Bem, a memória, essa também não arde, embora queime. E há quem se queime com ela. Olá se há!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: mas o senhor não nota aqui um cheiro a enxofre?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: No Reino do Enxofre há um espelho no qual se vê o mundo inteiro.. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: o quê? Isso parece tudo tão misterioso…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: …e tão transparente…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: detesto memórias. Detesto! Tudo isto vive disto, lá em cima são todos exploradores da memória alheia. Estão no altar das ladainhas, de sotaina preta! Malditos! É um mundo do [melífluo] «não se lembra»? Vem o acusado e tenta lembrar-se, coitado, faz das tripas miolos..&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: coração?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: o quê?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: faz das tripas coração! É assim que se diz…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: cale-se! O menino quer levar um estalo? Desmentem-se assim os mais velhos?! Vem o acusado, coitado, e tenta lembrar-se…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: não! Vem o acusado e tenta lembrar-se, coitado…o coitado é depois de lembrar-se não depois de acusado!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: Bem! Estou tramado contigo! Mas tu és dos que vêm para aqui com a cantiga ensinada?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: não, o senhor é que primeiro disse de uma maneira agora de outra..&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: [virando-se para a assistência]: este gajo ainda termina Procurador da República…cá com a mania de passar rasteiras ao pessoal!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: posso continuar ou não posso continuar?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: desculpe!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: vem o acusado, coitado, e tenta lembrar-se, coitado, pronto ficas contente assim? Vem o acusado duplo coitado e faz das tripas miolos, mas a memória escorrega-lhe…para o ralo da conveniência. [melífluo] «O senhor só se lembra do que lhe convém…». Vem a vítima, e lembra-se de tudo, mas de repente dá-lhe uma pancada de medo e começa a esquecer-se. [melífluo] «Então agora não se lembra? Veja lá, minha senhora, faça um esforço! Está nervosa, é?». E depois vem o polícia que esse então lembra-se de tudo. Tudo, tudo. São mesmo para esquecer!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: tem vergonha de contar a sua vida, é?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: não!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: está zangado comigo? O que tem?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: tenho uma coisa chamada o desejo de que não me chateiem. Sabes como é? É das coisas que deviam vir na Constituição!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: mas eu já lhe falei de mim e o senhor parece ter receio de falar na sua pessoa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: olha que a vergonha se calhar é igual. [Ríspido] Tu achas isto aqui, o quê? O muro das lamentações? Aprende meu rapaz! Isto aqui é como em relação a certas marquesas e outros condes! Nunca se pergunta se são verdadeiros, mesmo quando tocam a quebrado…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: e lá em cima, eles querem saber?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: saber de quê?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: da história, das nossas histórias, da minha, da sua…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: eles? Evitam... São profissionais, pá. Achas que lhes interesse o que não interessa? Olha lá, isto não é um confessionário em que o desgraçado padre leva com tudo e as botas que lhe querem despejar. Lá em cima eles é que dizem o que querem ouvir! Vais ver. Aprenderás a descobrir os que têm cara de sentido proibido. Com sorte talvez o teu advogado faça de sinaleiro. Em caso de dúvida, cala-te. Nunca digas que não te lembras! Eles ficam desapontados contigo…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: mas…e a verdade? Não interessa?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: verdade? Mas qual verdade? Ela há tantas…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: então, mas já não há uma só verdade?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: [Num murmúrio] ouve-me uma coisa, garoto. Pára com essa treta da verdade e da mentira, que essa aqui não pega. São décadas à volta do mesmo. Estes tipos devem estar fartos. Olha, eu estaria! Aprende! Aprende comigo nesta hora que levamos disto! Neste buraco, como afinal na vida lá fora, conta sim o efeito, o efeito e não a santinha da verdade. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: o efeito…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: sim, precisamente o efeito. A impressão que causa o que dizes num coração mole, a utilidade dos teus argumentos nos que jogam na roleta das conveniências. É isso a verdade. O efeito que parece real, o efeito que dá resultado. Tenta, puto, tenta. Eles não podem escapar-te, mesmo quando não gostam de ti, nem evitar-te mesmo quando têm de te fazer mal.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: e se tudo isso falhar?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: falhamos todos! A Justiça é a ilusão de que isso funcione! Fazemos todos o que nos é possível…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: mas como posso safar-me?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: contando uma história de ti que te torne irreconhecível! Faz com que aquele que sair condenado seja outro que não tu. Um outro lado de ti. Não importa. Não lhes dês a oportunidade de te apanharem a alma! Tenta safar-te. Olha, só tens uma possibilidade: safares-te com uma história. Que não contradiga muito o que está no processo. Mas que não seja muito igual. Esta malta desconfia de coincidências e vive a explorar contradições. Para eles o mundo é uma questão de lógica! Julgam o que acham nunca seriam capazes de fazer. Por isso condenam, para se absolverem…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: e o senhor, conta safar-se?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: eu sou um artista, rapaz. Todo o artista é incompreendido…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: artista de quê?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: da cópia de grandes obras. Tudo o que de grande se produziu na Humanidade eu tento fazer igual. Desde que resolveram criminalizar as Belas-Artes estou nisto. Misturado com gajos como tu, com o devido respeito pelos outros gajos…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;II ACTO&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: ai, ai.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: mas ai, ai, porquê, se posso saber?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: por coisa nenhuma!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: bem me parecia. Vocês tornam-se uns inúteis do lamento inútil. São da especialidade dos que choram sem chorar…parece que precisam de estar infelizes para terem sentimentos! Não largam a braguilha do choramingado…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: mas acha que eu estou bem…?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: nem tu nem ninguém que isto aqui é só desgraça, babugem, ou achas que há por aqui histórias felizes? Ninguém é feliz aqui! É uma cloaca de despejos a caminho do rio do esquecimento! Está tudo preso mesmo os que julgam que só nós estamos presos! Presos! [vira-se para a assistência e aponta para cima]: estão todos presos a nós! Os nossos casos, as nossas vidas aprisionam-nos! É essa a nossa vingança suprema! São heróis a arrastarem correntes que os agrilhoam a nós…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: não sei. É a minha primeira vez.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: com sorte talvez não seja a última… [vira-se para o público] há que garantir a continuação da espécie, não? Não se riem? [Faz uma careta]. Compreendo-vos bem. A espécie tem vindo a degradar-se. Pilecas destas, com vidas que parecem de aluguer. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: olhe, desculpe, mas para que hora está o senhor marcado?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: o senhor está marcado para as duas, ó seu exercício de estupidez, espécie de corpo sem espírito nem alma!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: e eu para a uma e meia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: tanto faz! As horas aqui são sempre a partir das. Depois logo de vê. A coisa vai-se ajustando. Deixa que, quando chegar a tua hora, eles chamam. Aqui ninguém se esquece de ti. Quando não há vento, vai-se a remos!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: nunca aconteceu?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: sei lá. Acho que não! Às vezes lembram-se um pouco tarde, distraem-se!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: já vi que as suas certezas são sempre ao nível do acho.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: e lá em cima, achas que é melhor? Ou não viste escrito lá fora, na parede, que «a sentença é uma opinião»?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: lá fora?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: sim, lá fora. Ao pé das limonadas. Ou já apagaram?.. Porque há sempre um lá fora mesmo cá dentro. Mesmo dentro de ti. A liberdade é uma luz. É já não haver limite para coisa alguma. Um dia perceberás que é essa a liberdade, a liberdade de fugires de ti, encontrando o alçapão que te permita escapar para o infinito.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: uma espécie de túnel, como o antigo de Campolide.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: ora precisamente. Vês como aprendes depressa? Mas…olha lá…falaste em Campolide, porquê?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: calhou. Paro por lá.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: paras por lá, como? Vives lá?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: não! Vivo agora! Avio clientes por ali.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B [como se falando para si próprio]: avias clientes por Campolide, é? E costumas bater muito por ali?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: quando calha! Tem dias…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: a tua cara de ziguezague diz-me qualquer coisa!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[pausa, a cena escurece]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B [esquadrinhando a parede]: olha que bela literatura…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A [olhando vagamente interessado]: qual?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: qual? Esta! É pá, que a malta agora esmera-se! Então agora já prendem escritores?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: ora…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: ora? Olha vê-me só esta «somos fruto de uma geração, que nos julgam totalmente incapazes de tomarmos nossas próprias decisões, por amarmos de uma forma totalmente louca, mas real». &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[pausa; B continua a ler pelas paredes…]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: olha outro «estamos aqui desde as 14:00 e já são 18:30. Estamos loucas e a nossa injustiça já foi feita. A droga que trouxemos era pura. É ouro! Matava mais gente… da próxima trazemos açúcar e vamos perdoadas ou apanhamos mais cana».&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: são mulheres?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: só pode. Olha-me para isto que é coisa de gaja «só Deus vivo é o juiz que nos pode perdoar e tirar do cativeiro. Ele é a verdade, a luz e o perdão. Crê e ele te salvará!»&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: ena pai! Deve ter levado uma boa castanha, com tanta fé e tanta esperança.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B [rindo-se]: vá, não faças pouco de quem tem fé! Quando falha a esperança, resta a fé! Hás-de aprender! O desespero toma conta de ti a tal ponto que chegas tu e o teu pavor a terem o mesmo cheiro! Olha, esta é demais! «Hirondina é desta que vais para casa amiga, mas não te esqueças do meu isqueiro!». &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: Haja Deus! Só nos faltava estar num calabouço para gajas, das que se esforçam por esquecer que existem. Ao que um homem chega…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: mas elas também vão muito de cana?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: não tanto quanto merecem… Estou a brincar, vê lá! Estou a brincar…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: coitadas delas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: sim, coitadas. Há gente capaz de emporcalhar tudo só com um olhar, sabes?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: a que propósito vem isso?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: deixa lá. Agora sou eu: deixa-me em paz! É uma lembrança que pedala dentro de mim…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[A e B deitados, lado a lado, no mesmo catre. B soerguer-se-á, colocando-se perto das grades]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: que horas são?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: porquê? Está com pressa? Não sabe marcar passo?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: engraçadinho…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: porquê? Não me diga que não tive graça?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: nenhuma. Não tiveste mesmo graça nenhuma. Se queres saber.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: não quero não.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: falta-te sentido de humor, miúdo. Ris do que não tem piada. E olha que o homem é o único animal que ri.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: a hiena também.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: também não teve piada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: ora ainda bem.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: [suspira] mas afinal não disseste que horas são…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: e o senhor não tem relógio?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: tenho, mas sabem melhor as do relógio dos outros…são mais baratas…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: ah!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: além disso, o meu não é despertador.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: não se preocupe que aqui ninguém se esquece de si.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: é para rir?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: não.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: que pena! [cínico] Tão divertido que és! Ouvir-te é como lavar o surro da alma! És uma barrela de gajo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[pausa; ouve-se o som de marteladas]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: ouves isto?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: o quê?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: o quê, ó meu oficialmente estúpido? Não vês que estão a martelar?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: ver não vejo, quando muito ouço.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: deixa-te de te armar em engraçado puto, que isto agora não tem mesmo piada! Parece que querem escavacar isto tudo, com um escafandro!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: melhor ainda, menos sobra! [o som aumenta]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: sobra? Quem não sobra somos nós, que ainda levamos com o tecto em cima e eu não nasci para soterrado…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[o som pára; A e B entreolham-se]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: pararam? [pausa, o som recomeça]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: parece que… [o som pára]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: eia, eia, ó senhor guarda! Eia!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[voz masculina]: mas que algazarra é esta?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: algazarra? Algazarra é esta martelada que me rebenta com os miolos! [pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: ó senhor guarda! [o som recomeça]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[voz]: diga lá [o som aumenta]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: o quê?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: alguém falou? Mas tu agora falas com polícias? Mas onde é que já se viu?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: fui eu quem falou!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: não! Lá de fora! Uma voz…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: xô! Deixe ouvir! Ó senhor guarda! Estão para aí a partir o quê?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[voz]: pedreiros! [pára o som]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: pedreiros? [incrédulo] mas isto vai para obras? Mas que malta da ferrugem é essa com quem estás a falar?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[voz]: mas quais obras nem meias obras? Então não sabe que estamos de mudança? Que o tribunal vai sair daqui? [o som recomeça]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: sair daqui? Mas sair daqui para quê?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: daqui? Mas daqui para onde? [o som pára]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[voz]: olhem que isso adianta-vos muito.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: mas então e o nosso julgamento?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: isto parece uma comédia [o som são agora as batidas de Molière]. O Pátio das Comédias.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[a cena escurece]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[B está virado para o público; A continua colado às grades]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B [para o público]: ir embora daqui? Mas como ir embora daqui? [o som agora é o do zumbir de uma broca]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: não! Não é possível! Tantas semanas, tantos meses à espera deste momento! Isto não pode ir embora daqui. Não pode pura e simplesmente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A [em conciliábulo com o guarda]: ainda hoje? Mas ainda hoje como?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B [sempre para o público]: tanta noite mal dormida a pensar no dia de hoje. E logo hoje não há hoje? Lírios no campo, pássaros no céu! Abram-se as portas do Além!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: cale-se, deixe ouvir!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: mas cale-se o quê? Mas então um homem prepara-se e depois é o vai-te embora?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A [sempre em conciliábulo]: ah! Para hotel! [pausa; vira-se para B] Isto vai ser para hotel…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B [atónito]: para hotel? Está a gozar comigo! [virando-se para a assistência]: tantos dias, tantas noites e agora não é mais aqui!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[B corre a juntar-se a A; ambos ficam às grades]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A e B [ouvindo do guarda e comentando com expressões de interjeição, monossilábicas]: sim, sim, não? Xi!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A e B [correm para a boca de cena]: um hotel!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: de charme! Um hotel de charme!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: Jesus, é pior do que eu pensava!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[a cena escurece]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;III ACTO&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A decoração é a de uma saleta de hotel, dois sofás; o fundo é agora de cor de salmão, com quadros pendurados. Um candeeiro de pé alto. A está sentado num dos sofás, fumando um charuto, B entra, reconhecem-se e entabulam conversa. Ambos vestidos com elegância. O tom é afectado, snob.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B [levantando-se do sofá, ao reconhecer A]: ó meu caro amigo!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[abraçam-se efusivamente]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: mas que agradável surpresa!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: e que magnífica coincidência.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: catorze anos depois!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B [baixando o tom de voz, com ar de embaraço] sim, catorze anos, duas vezes sete, magnífica soma! Pensei que não me reconhecesse…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: como não o reconheceria? Apesar de estar um pouco mais novo…de aspecto, diga-se! Então o que faz?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: o que faço? Nada!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: nada? Porquê?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: evito fazer! Tenho quem faça por mim! Dediquei-me a arrumar umas contas com o passado. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: folgo muito em vê-lo!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: eu fiquei muito contente comigo ao tê-lo visto!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: não contava voltar a vê-lo…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: eu esperei este tempo para voltar a encontrá-lo…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[pausa; entreolham-se; ambiente de embaraço]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: Então e…da outra vez?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: qual outra vez?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: ora qual outra vez? Há catorze anos, neste mesmo lugar!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A [dirigindo-se para a assistência, pausado, enfático]: Neste mesmo lugar…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: fomos adiados não fomos?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: sim, fomos adiados. E depois…bom [cortante], depois não interessa!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: é verdade, não interessa. Não interessa mesmo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: bom hotel este…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: muito bom!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: charmoso…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: muito! Costuma hospedar-se aqui?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: muitas vezes. Tem…bons ares…é praticamente a minha casa…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: da zona ribeirinha!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: isso! E o senhor costuma vir para aqui?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: é a primeira vez.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: a primeira vez?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: sim, a primeira vez. A bem dizer, hospedei-me aqui por sua causa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A [surpreso]: por minha causa?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: sim. Precisamente por sua causa. Vi-o entrar para aqui e decidi-me.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: Ah! Mas…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: estamos no mesmo piso…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: junto ao Bar Plenário?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: ora aí está. O meu quarto é ao cimo da escada…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: perto…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: [inquietante] muito perto! Quis estar muito perto de si…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: mas…porquê?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: porquê?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: queria encontrá-lo. Fazia absoluta questão em encontrá-lo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: encontrar-me?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: sim, encontrá-lo. Procurei-o todos estes anos. Ninguém sabia de si. Foi absolvido, vim a saber. A partir daí sumiu na escuridão, excepto na minha cabeça. A sua imagem esteve tanto tempo nos meus olhos que se fundiu neles.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: estive fora e dentro estes anos…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: eu também. Fora de circulação. Tanto tempo… um tempo que não é o do relógio, um tempo vivido, um tempo que se vinca, sabe! Um tempo que se vinca em rasgos no coração…, um risquinho, dois risquinhos, à espera da porta aberta, do alça-te e ala à noite da vingança.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: mas o que pretende o senhor de mim?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: [muda para um tom intimista mas ameaçador]: vê lá, faz um esforço. Pensa um bocadinho. Dá-me este tempo de gozo. Estou guloso de ti…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: desculpe-me, mas não estou a entender. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: não estás? Ou não queres estar?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: porque haveria de não querer entender?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: porque pode não te convir entender!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: eu não tenho conveniências dessas…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: todos nós temos as nossas. A mim, por exemplo, foi-me muito conveniente vir atrás de ti. Seguir cada um dos teus passos. Não calculas o gozo. Olhar para ti a uma conveniente mas curta distância. Mirar-te as roupas, a mala. Mas que belas malas. Sou um vicioso. Ver é a minha perversão. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: é dinheiro que quer?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: dinheiro! Porquê? Tens alguma coisa a comprar, puto?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: … eu já não sou puto! E não sei o que o senhor quer…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: e convém-te saberes, não é? É isso…são as conveniências de quem agora já não é o puto que eu conheci. O pequeno mundo das pequenas conveniências.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: despache-se. Diga ao que vem. Não tenho tempo a perder consigo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: tempo? Todo o tempo, puto. Está em causa a tua vida toda. Todos os anos que já viveste. Todos os anos que ainda te restam para viver. Eu sou um comboio fantasma que veio pela noite fora ao encalço dos teus pesadelos…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: …mas o que quer dizer com isso?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: mataste, não mataste? Diz lá...mataste, sim!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: mataste! Mataste-a e agora tinha-la morto já na tua consciência. Catorze anos depois já nem vestígio havia. Estavas tranquilo com a vida. Rico, feliz, respeitável. Sossegado. Amnistiado na tua cabeça!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A [soergue-se e virado para a assistência]: sossegado…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: dono, enfim, deste hotel! Mas que magro, afinal, era o teu capital de felicidade!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: como sabe isso do hotel?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: dono, enfim, deste hotel…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[pausa]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: até que eu te vi chegar. Eu já estava ali. Há catorze anos à espera. Sabes o que é uma espera nervosa que se torna num aguardar paciente? O sentinela da justiça, contando os passos, sem rendição…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: à espera de mim?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: sim, de ti mesmo, o rapaz que costumava parar por Campolide…o rapazinho tímido, caricatura de gente, um garnisé na prisão do galinheiro!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[pausa; A olha profundamente para B]&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: mas…, mas…que quer o senhor?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: eu? Tu é que agora vais querer alguma coisa de mim!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A [virando-se para B]: perdoe-me, senhor, por favor…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: perdoo-te?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: sim, perdoe-me! Por favor! Não diga a ninguém! Não fale! Que fique entre nós esse segredo! Nem lhe pergunto o que sabe ou como sabe! Nada! Nem uma palavra. O silêncio…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: e como achas que um acusador pode perdoar sem condenar?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A [nervoso]: o senhor já me condenou!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: reconheci-te uns dias depois de termos estado naquela cela, neste mesmo lugar. Foste tu quem a viciou, quem a conspurcou, quem ma matou. Não tinha outra filha.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: por favor! Não! O senhor não compreende…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: não tinha outra filha nem outro amor. Mataste-ma. E soube-te bem matá-la! Rendeu-te bem matá-la!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: matei-a?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: mataste-a, sim. E agora, é a hora em que vais ser julgado! Adeus à tua riqueza de coisas inúteis…chegou a tua boa hora…a idade do ferro, em que as penas e a miséria do teu passado serão o punhal que ter roubará ao presente. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: julgado? Mas julgado como? Não me diga que me vai denunciar ao tribunal?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: não, não te vou denunciar ao tribunal! Há segredos que não se partilham! Uma palavra dita, uma alma morta! Este é o meu mundo, o que me resta de todos os outros mundos. Perdi a convicção na possibilidade de me convencer!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: O senhor está louco! Aliás, provas, onde é que as teria?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: estás tão errado, meu rapaz. O tribunal que te vai julgar tem já as provas todas. Não vais ter a sorte da tua outra vez. Lembras-te? Cada um que subia do alçapão à superfície julgava que era a ele que a sorte ia favorecer. Como na lotaria! Como na casa de penhores! A ele e mais ninguém. Um dia de sorte. Tu tiveste já o teu dia de sorte. Este é outro tribunal! Eu sou a vida que veio procurar-te onde tu deixaste a vida!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: mas qual tribunal?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: ah! Como te falta a palavra que te permitiria o segredo! Este tribunal! Este mesmo tribunal! Aqui, nesta sala, neste local! Uma vez tribunal, tribunal sempre. Fora de todo o outro mundo, oficial, real, verdadeiro! O Tribunal da Última Razão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A: como?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;B: sim, pobre aprendiz da malignidade, neste tribunal serei eu o teu juiz e o teu defensor! Os teus remorsos serão os teus acusadores. Não tens mais ninguém. Há sempre um dia em que se não tem mais ninguém no tribunal da consciência. Aproximam-se as trevas. Prepara-te para esta breve viagem. Não há nada mais para além daqui. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;FIM&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-2649111727346196091?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/2649111727346196091'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/2649111727346196091'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2010/06/nao-te-esquecas-do-meu-isqueiro.html' title='Não te esqueças do meu isqueiro'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04958970604904404916</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/StnoYUEKJyI/AAAAAAAAAJo/s7zZPLEYW80/S220/JAB-59A.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/TCeoEQKE2yI/AAAAAAAAAq0/dnyo1LeF-pg/s72-c/Boa+Hora.jpg' height='72' width='72'/></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-5487050437428851549</id><published>2010-06-17T09:07:00.000+01:00</published><updated>2010-06-17T09:07:12.938+01:00</updated><title type='text'>A dez mil quilómetros de ti</title><content type='html'>Chegara ao escritório, mal tivera tempo de pousar a mala ou de despir ao menos o casaco, quando a viu, no tampo envidraçado da mesa, entre notificações e umas quantas inutilidades, uma carta, com a tarja de correio aéreo, as marcas da distância enrugadas no envelope.&lt;br /&gt;Sentou-se e na ânsia controlada que era o seu modo de sobreviver ao espanto, leu-a como se fosse alheia:&lt;br /&gt;«Ouve-me. Ontem parece que acabou tudo o que me trouxe aqui. Vi-me como se a um espelho. Um sentimento de isolamento, o desejo de não estar, a incapacidade de fruir com os outros a autenticidade da vivência que eles retiram e lhes basta, entre a infâmia da intriga permanente e a indiferença face à miséria que nos circunda.&lt;br /&gt;Hoje, estonteado pela luz, tentei sair à rua. Qual toupeira cega, não cheguei além do primeiro quarteirão empoeirado. O sol, o inclemente sol, perseguindo-me a cabeça, o zumbido de insectos alados anunciando um apetite voraz pelo meu sangue, hordas de crianças, pedintes, míseras, pertinazes na arte de perseguir por uma moeda, batedores do alheio, o estrangeiro como uma mina e o eldorado e em tudo, um halo de cinzas, de destruição, de morte ainda fresca. Cambaleando de dor, regressei.&lt;br /&gt;Dizem-me que é uma nação a fazer-se. Dizem-me que no ar condicionado se redigem prodígios de arquitectura legal. Na rua, ostensivas e arrogantes, patrulhas motorizadas, carros de combate e camiões, provocadora uma parabólica esventrando os céus, sereias funcionárias estiradas nas praias, o luxuoso exibicionismo na areia suja, cochichos de fervilhante intriga, de doentia maledicência entre copos, corpos e comezainas.&lt;br /&gt;Não sei por quanto tempo ficarei, nem sei já se vale a pena aquilo que faço.&lt;br /&gt;Sei que há um «eu» que me trouxe aqui, sem ao menos o conforto de uma ideologia que sinta minha, de uma causa a que chame própria, de uma pátria de que me reclame. Patriota de pátrias adoptadas, pária por vocação, estrangeiro exilado de si, que nenhuma família em rigor reclama como seu.&lt;br /&gt;Mas conheço também aquele que nestas linhas se confunde e se lamenta e tenta mostrar que perdido está, trancado num quarto de hotel, desejando que não toque o telefone, que nada suceda, que ninguém o convide. &lt;br /&gt;O momento agónico da hora do almoço aproxima-se e com ele a descida necessária à casa de jantar. Fosse eu, nesse local de requinte, qual deck elegante de um navio, o solitário passageiro taciturno, aquele que a ninguém fala e de quem ninguém se aproxima, absorto na ausência como se num livro se concentrasse, indiferente e alheio. Pudesse, ao menos, essa categoria espectacular e trágica do homem só despertar, por um momento que fosse, o primeiro impulso do amor alheio que é a comiseração e a simpatia. Mas, trancado aqui e do mais isolado, resta-me o mundo fictício da minha literatura real, seus personagens e a promiscuidade dos seus actores.&lt;br /&gt;Dei comigo esta manhã, como se no cansaço do longínquo tivesse encontrado a incapacidade de regressar, como se no cais do meu próprio desembarque eu fosse aquele que acena aquém da viagem, um interminável adeus a ter ficado.&lt;br /&gt;Esgota-se-me aqui a capacidade de sofrer, o absurdo da condição de homem dividido, estendendo a mão como se, aqui por um côdea de afecto, ali por um halo de ternura, numa esquina incógnita aguardar e exaurir à saciedade, esgotados os sentidos, conseguisse com isso sobreviver.&lt;br /&gt;Longe da pátria onde não nasci, do lar que nunca tive, resta-me o fio desta correspondência e a esperança morna que a recebam.&lt;br /&gt;Talvez tudo tenha envelhecido a ponto de não haver mais do que, amanhã, o alçar a âncora lodosa de um cargueiro, o chiar retesado dos cabrestos e seu cordame, a maré a subir e com ela a hora de zarpar, orçando a bombordo primeiro em marcha a ré, e força à vante rumo ao norte mítico, ao equador da tranquilidade, à náusea de semanas com o mar apenas por companhia.&lt;br /&gt;Recolheria pela tarde ao camarote. Talvez eu te tivesse então e a nudez reconfortante do teu corpo a meu lado na ânsia de dormir, dormir só e tão-somente, que há dias em que um homem desespera de si e se cansa do resto.&lt;br /&gt;Ouve-me. Parece-me que tudo acabou. Ontem vi-me, como se num álbum de fotografias recordasse o longínquo parente, virando a folha, esquecido o nome, a memória ténue. Ontem vi-me ali, irreconhecível e de mim próprio incompreendido. &lt;br /&gt;Em breve fecha a mala postal. Quando me leres sabe-se lá como estarei. Os deuses apiedam-se muitas vezes abreviando o mal real com a embriaguez do sonho. Bebamos, pois, à vida, sejamos do mais esquecidos e do resto indiferentes, no confinado espaço, a cadência salgada do mar na escotilha, batendo o ritmo do coração, os solavancos dos nossos corpos em viagem.&lt;br /&gt;Espera por mim. Peço-te que leias os Laços de Família. É o que nos falta. Seremos uma, se eu voltar».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito tempo depois, teria a certeza de a carta era sua: o amor doloroso, feito da ausência ansiosa, pareceu-lhe, enfim, a felicidade possível, o máximo de todos os mundos. Momentos depois estaria na rua, todo o mundo de obrigações quotidianas à sua espera, daquelas que não fazem história nem mudam o mundo. Um desejo de que aquele infinito momento se pudesse prolongar tomou conta de si, o mar à vista, o céu a confundir-se com ele.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-5487050437428851549?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/5487050437428851549'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/5487050437428851549'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2010/06/dez-mil-quilometros-de-ti.html' title='A dez mil quilómetros de ti'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04958970604904404916</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/StnoYUEKJyI/AAAAAAAAAJo/s7zZPLEYW80/S220/JAB-59A.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-3828490158170470171</id><published>2010-06-03T22:14:00.002+01:00</published><updated>2010-06-03T22:28:43.939+01:00</updated><title type='text'>A vida a escoar-se</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Uns dias depois não sabiam onde estavam.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A cidade tornara-se confusa, labirintos os caminhos, duvidosas as ruas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Começaram primeiro por não saber para onde iam, depois já nem sabiam de onde vinham.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ganharam o hábito&amp;nbsp;embaraçoso de perguntar. Percebia-se que eram estrangeiros pobres, menos pelo muito que agradeciam sobretudo pelo medo estampado no rosto ao formular a perguntar, assustados pela pouca &lt;span class="goog-spellcheck-word"&gt;terminologia&lt;/span&gt;, à mercê da gramática alheia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Hesitantes e por isso cambaleavam, &lt;span class="goog-spellcheck-word" style="background: yellow;"&gt;cambados&lt;/span&gt;, &lt;span class="goog-spellcheck-word" style="background: yellow;"&gt;ensarilhavam&lt;/span&gt;-se uns nos outros os doridos pés. Eram três, um deles o mais novo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O lugar da sua origem, a País do nascimento, a Pátria das convicções, tudo &lt;span class="goog-spellcheck-word" style="background: yellow;"&gt;evanescera&lt;/span&gt;. Restava a antiguidade das suas figuras, as roupas desusadas,&amp;nbsp;um modo de parecer que o tempo tinha encerrado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O lugar tornara-se-lhe terra de exílio. Já não eram cidadãos e tinham para o serem cumprido o ritual burocrático e o desnecessário. Desalfandegados pela nacionalidade, haviam-se tornado eleitores, &lt;span class="goog-spellcheck-word" style="background: yellow;"&gt;contribuintes&lt;/span&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Funcionários houve que meticulosamente se tinham ocupado dos seus &lt;span class="goog-spellcheck-word" style="background: yellow;"&gt;insignificantes&lt;/span&gt; casos como se fossem importantes. Resumidos em fichas &lt;span class="goog-spellcheck-word" style="background: yellow;"&gt;sinaléticas&lt;/span&gt;, detalhados em processos, sujeitos a informações, pareceres, objecto da consideração superior, haviam merecido atenção primeiro despacho no fim.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nada disso interessava, porém, agora.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A expressão&amp;nbsp;&lt;span class="goog-spellcheck-word" style="background: yellow;"&gt;transida&lt;/span&gt; do medo entranhado na pele marcava-os e seguia-os. &lt;span class="goog-spellcheck-word" style="background: yellow;"&gt;Dir&lt;/span&gt;-se-iam acossados.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Aninhados uns nos outros, vagueavam as paredes como abrigo, os &lt;span class="goog-spellcheck-word" style="background: yellow;"&gt;esconsos&lt;/span&gt; esconderijos. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Há no hálito dos fugidos, no turvo &lt;span class="goog-spellcheck-word" style="background: yellow;"&gt;empestante&lt;/span&gt; na urina que deles escorre, na incontinência do pavor, o estigma do crime de cuja expiação fogem. No seu caso fugiam de o praticar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A voz do sangue, antiquíssima voz, língua acre e &lt;span class="goog-spellcheck-word" style="background: yellow;"&gt;vingativa&lt;/span&gt;, &lt;span class="goog-spellcheck-word" style="background: yellow;"&gt;bífido&lt;/span&gt; sinal de emboscada a nascer nos confins da mente, raiava-lhes o branco sujo dos olhos. O ódio &lt;span class="goog-spellcheck-word" style="background: yellow;"&gt;entumescente&lt;/span&gt; sufocava-lhe a garganta e asfixiava o coração.&lt;br /&gt;Vindos do lugar confinado da raiva, tinham-se confiado a um Deus maldoso que lhes entregasse a sua presa.&lt;br /&gt;Aconteceu ali, onde a rua se esgota numa parede. Primeiro o rosnar da surpresa, o arfar da gula, predadores esfaimados, logo de seguida um golpe só e a vida a escoar-se sujando a valeta &lt;span class="goog-spellcheck-word" style="background: yellow;"&gt;gordurosamente&lt;/span&gt;. Enfim a desfiguração. &lt;br /&gt;Quanto saíram a massa informe espezinhada que deixaram para trás havia sido uma pessoa.&lt;br /&gt;Nesse dia iniciou-se o seu regresso à cidadania. &lt;br /&gt;Ao covil dos homens regressavam as feras saciadas. No dia seguinte as autoridades as removeram um corpo e sua razão para um coval e para um arquivo respectivamente, forma &lt;span class="goog-spellcheck-word" style="background: yellow;"&gt;administrativa&lt;/span&gt; de se esquecerem.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-3828490158170470171?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/3828490158170470171'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/3828490158170470171'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2010/06/vida-escoar-se.html' title='A vida a escoar-se'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04958970604904404916</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/StnoYUEKJyI/AAAAAAAAAJo/s7zZPLEYW80/S220/JAB-59A.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-2472508356867881717</id><published>2010-05-24T22:11:00.001+01:00</published><updated>2010-05-24T22:26:39.279+01:00</updated><title type='text'>O ar irrespirável</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sábado de tarde.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sala após sala, hoje todas vazias.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Fechadas umas, entreabertas outras, as portas dos gabinetes alinhavam-se ao longo do corredor, o dele o último, à esquerda, já houve tempos em que «o senhor doutor, lamento, mas é raro estar aqui, terá de fazer a fineza de marcar». Agora era como se não tivesse mais para onde ir, o estar equivalente a ser encontrável, a oferecer-se, estando, a que o encontrassem.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O Verão chegara antes do tempo, na forma de um fim-de-semana sem gente e de um sol a amarelecer a vida, encarquilhando-lhe os restos, assim se não fechassem nas gelosias as tabuinhas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nunca se sabe como se chega a ser o que se é.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Primeiro fora a lenta agonia da profissão, o mal que lhe fazia sofrê-la de dia e odiá-la de noite. Agora, como se tudo não tivesse uma história a intervalar o tempo, a tê-lo poupado ao longo e dorido acto de vivê-la, estava assim, inerte, indiferente de sentimentos, vazio de ideias.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ficaram-lhe, nas estantes, preciosidades antigas, na forma de livros que tinham caído em desuso, a encadernação como réstia de uma importância agora ilusória. Sentado onde estava, já não conseguia ler-lhes as lombadas, adivinhando-os pelo lugar de onde há tanto tempo não saíam. Nesta tarde, neste sábado de agonia abafada, olhava-os com o gesto contido, o espírito parado, longe dali.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E, no entanto, durante tantos anos, estes livros bafientos agora, mas que já tinham sido novos e úteis e até como colegas prestáveis, tinham sido companhia, enxada, por vezes o desespero. Nalguns anotara mesmo, com caligrafia miúda, apontamentos, tantos em meias folhas de bloco, momentos de interpretação, o exteriorizar de uma dúvida, a extensão de um comentário.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Lembrou então o facto, o que esta história conta.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Talvez tivesse sido também num sábado, ou num domingo de tarde, quando ainda é pior estar-se no escritório fechado, amputada pela clausura a vida e deformado pelo isolamento o ser.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Parecia-lhe hoje tudo tão longínquo que dificilmente conseguia reter na consciência actual ou fixar na memória passada uma data para o que acontecera. Tinham-lhe ficado, porém, impressos no sentir magoado os pormenores do que sucedera, mesmo os mais insignificantes.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Esquecera-se de todo que, na segunda-feira, lhe acabaria, impreterível, o prazo de um dos poucos processos que ainda tinha; pior, o prazo para fazer o que adiara toda a semana, sem vontade, na mira de um halo de resignação que o levasse a sujeitar-se a ter de o fazer.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;À força de empurrar para o fundo da memória aquela obrigação insuportável, o espírito, apiedado, fizera com que se esquecesse.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Foi pela hora de almoço que veio ao consciente de si a lembrança.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por essa altura ainda teria família, almoçava-se muita vez perto de casa, num restaurante que se tornou impossível.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Contrariado, sentara-se, sentindo a agonia do papel em branco, a desesperante falta de vontade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Começara com o sacramental «Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz de Direito do Tribunal Judicial de» para logo se afligir com o saber a que tribunal se deveria dirigir, entre o labirinto de regras de competências e de conflitos territoriais e o receio de que um engano, com o prazo a acabar, lhe pudesse ser fatal.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Continuou então, linha a linha, o pensamento a escorrer-lhe para o papel, o desconforto de imaginar que já nem tinha quem lhe dactilografasse o que escrevesse.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Foi então que lhe pareceu que alguém batera à porta.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Primeiro, toques tímidos, hesitantes, depois, porque a campainha não funcionava sempre naquele escritório em que, lentamente, tudo deixaria definitivamente de funcionar, um bater mais claro, mais nítido, como se um sou eu familiar, a aflição de um abre-me.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Desperto para um exterior de onde há tanto tempo quase nem o correio lhe chegava, deu consigo, os passos abafados pelo velho tapete, corredor afora, num «já vou, por favor espere», em que só a vergonha escondia a súplica murmurada do «não se vá» e a alegria gritada do «é para mim!».&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Era de facto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Morava na mesma rua, do outro lado do passeio, num andar de um prédio gémeo, dos que viram ainda passar carroças de lavadeiras e amoladores galegos, a roda de afiar e os cortadores de gaforinas ao domicílio, corte curta a franjinha que é para mais durar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sabia-o advogado, desde há muitos anos, vira-o no ir e vir afadigado dos tempos em que tinha pressa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Assistira à sucessão dos seus automóveis, conhecia-lhe, como se fosse o seu, o guarda-roupa, a sucessão primeiro de roupa nova em cada estação, o estabilizar, enfim, no velho sobretudo, os sapatos amassados nos pés timoratos do caminhar miúdo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Vizinha, partilhara o prédio e suas rendas com uma irmã, solteira como ela, anos a fio e com ele uns quantos outros espalhados, nem ao menos em propriedade horizontal, por essa Lisboa em ruínas, na Madragoa um, o mais antigo, em que uma mercearia caduca era o que sobejava de arrendável, no Alto do Pina outro, cedido, sem contrato sequer, a uma garagem de recolhas que outrora ainda fora de reparações até que o mecânico se reformara e o filho do dono se resolvera a arrendar o espaço como armazém de estacionamento.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Era a vida imobiliária que a trazia ali.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Lentamente, ano após ano, a doença da irmã, primeiro atirando-a para o desatino doméstico das atitudes incompreensíveis e depois para um lar, nas Avenidas Novas, onde foi encontrada sem sentidos num dia anónimo em que chovia, haviam feito dela o último ramo subsistente da família e a única herdeira da fortuna por dividir; mas uma fortuna em ruínas, prédios entaipados e esvaziados de uso, alguns só em paredes, como muros altos de matagais imensos e coito de vadios e indigentes sem casa e outros animais rastejantes.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tratava-se de conseguir, por entre os labirintos da burocracia, evitando os alçapões do Direito, tornar aquele museu paleolítico, verdadeira pedreira urbana que em tempos tinha sido pequenos palacetes e geminadas moradias, algo de rentável, que vendido ao menos ao desbarato desse dinheiro para uma vida decente que a tirasse daquele envergonhado remedeio, recordações antigas como única companhia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Negócio promissor, encontrara enfim, nos últimos dias, a solução milagrosa que a penúria lhe não permitia, na forma de um atrevido promotor que de tudo faria habitação de luxo e condomínio fechado para gente ansiosa de viver bem e temerosa de viver em insegurança.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;«E em que posso ser-lhe útil», arriscou, uma bruxuleante luz a acender-se-lhe nos olhos, o velho advogado, vendo surgir-lhe ali, enfim, para os últimos anos da vida, um trabalho capaz que o devolvesse às lides, ao menos ocupação do tempo que o fizesse sentir-se um homem útil, rendimento valioso que lhe permitisse outra vez um viver desafogado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Porque, tal como a criatura que aquele sábado de tarde lhe trouxera, como se o piedoso destino tivesse girado em seu favor a roda da fortuna, também ele era um emparedado pelos escombros do que amealhara. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Soterrado em livros que eram a arqueologia de um Direito que o tempo tornara caduco, arquivo abarrotado de processos que haviam passado de vez para o rol dos casos findos, a memória esfrangalhada de histórias de gente que já nem vivia para as poder contar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Todos os casos em que se envolvera, os processos em que litigara, os acordos que conseguira firmar, o mais insuportável cliente e o mais rebaixado colega, a galeria dos seus horrores parecia ter-se convocado para aquela saleta poeirenta, que a luz do sol tentava abocanhar com hálito quente e devorador.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;«Desculpe-me, não sei se serei oportuna, ainda por cima ao fim de semana», rápida a voz, prático o espírito, «obrigado, mas não vale a pena sentar-me, é rápido».&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E de facto era: parte do negócio envolvia a venda do prédio onde estava aquele escritório, a demolição, o despejo certo, o ter de negociar com os novos senhorios, gente difícil, «desculpe-me mas compreende não é? Não temos outra alternativa e na sua idade também trabalho já não terá muito».&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O estertor do silêncio deu o sinal da compreensão. A vida encarregara-se de resolver.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Saiu, tímida, hesitante, uma possível última frase por dizer, o advogado gentil a acompanhá-la à porta, mas enfim recomposta, a figura, a pose, a postura, adejando como liberta e de novo retornada aos tempos áureos, talvez mais nova não sem um «que calor está aqui, estes reposteiros não lhe tornam o ar irrespirável?».&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No dia seguinte encontraram-no enforcado, a língua ridícula de grossa, o corpo a defecar-se, imundo e triste.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-2472508356867881717?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/2472508356867881717'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/2472508356867881717'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2010/05/o-ar-irrespiravel.html' title='O ar irrespirável'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04958970604904404916</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/StnoYUEKJyI/AAAAAAAAAJo/s7zZPLEYW80/S220/JAB-59A.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-927712622902395197</id><published>2010-05-08T03:21:00.002+01:00</published><updated>2010-05-08T03:28:22.360+01:00</updated><title type='text'>A interminável história de viver</title><content type='html'>Eram&lt;br /&gt;pouco mais do que sete horas&lt;br /&gt;da manhã.&lt;br /&gt;Talvez a rua não seja hoje,&lt;br /&gt;ao entardecer-me o pensamento,&lt;br /&gt;na sua indecisa forma&lt;br /&gt;e evanescente aparência,&lt;br /&gt;mais do que uma sonolência&lt;br /&gt;ou um estremunhar&lt;br /&gt;a boca azeda os olhos semicerrando-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas há a&amp;nbsp;vida&lt;br /&gt;e a força de viver&lt;br /&gt;e com isso o sol&lt;br /&gt;e o desejo de lua&lt;br /&gt;gananciosa vontade&lt;br /&gt;ferrada nas entranhas &lt;br /&gt;voraz de carência e da ausência saudosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez a rua e nela a presença&lt;br /&gt;nocturna e noctívaga&lt;br /&gt;intervalo que é de vidas cansadas&lt;br /&gt;seja a forma&lt;br /&gt;o modo&lt;br /&gt;e afinal o&amp;nbsp;meio&lt;br /&gt;de vividas estarem todas as vidas&lt;br /&gt;e surgir, nítida, exacta e colorida,&amp;nbsp;a possibilidade enfim de viver.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-927712622902395197?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/927712622902395197'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/927712622902395197'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2010/05/interminavel-historia-de-viver.html' title='A interminável história de viver'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04958970604904404916</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/StnoYUEKJyI/AAAAAAAAAJo/s7zZPLEYW80/S220/JAB-59A.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-6962695216001978905</id><published>2010-05-01T14:25:00.000+01:00</published><updated>2010-05-01T14:25:16.616+01:00</updated><title type='text'>O marceneiro místico</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sentado num canto do armazém, um homem olha, uma vez mais, o espaço vazio à sua frente. O que fora uma serração, fábrica de móveis para exportação, era agora um hangar, lugar de arrumação de madeiras emparelhadas e nada mais.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A falência tinha encerrado a produção, os credores mais astutos tinham conseguido, pela calada da noite, levantar as máquinas, pagando-se assim, conluiados com os administradores que, entretanto, andavam por parte incerta.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Restava agora o material que, anos a fio, dera trabalho a tanto operário, prodígios em carpintaria que a arte de tornear havia feito ornamento de pobre e vaidade de rico, prenda para primeiro casamento ou remodelação de fastidiosa decoração de uma vida a precisar de novidade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Agora, tudo se resumia à sua pessoa e às pilhas de barrotes de que ficara, nomeado pelo tribunal, fiel depositário.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não fora fácil adaptar-se ao seu novo estatuto, à condição legal em que fora investido, sem pompa nem circunstância, por um oficial de diligências apressado no «assine aqui».&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Filho e neto de operário, educado na honradez do sacrifício, instruído na dureza do combate pelo pão e pela paz, faltara-lhe a coragem de anunciar-se em casa como despedido, como se aquela ociosidade forçada fosse um anátema que o desqualificasse como homem e o insultasse como cidadão, como se abandonasse agora, com o seu novo estatuto, as fileiras do proletariado, razão do seu orgulho e da existência do seu ser.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ainda por cima, aquela nomeação vinda do tribunal tinha, nos recônditos clandestinos da sua memória, um sabor estranho a colaboracionismo, que o tornava um amarelo traidor à causa colectiva, à luta dos trabalhadores seus camaradas, cerrados ainda em fileiras, nos piquetes de greve, que nunca furara uma sequer e pelos quais sofrera os curros do Aljube, sua condecoração, lenço vermelho ao pescoço, apertando-lho como se a lembrar o juramento fraterno do juntos venceremos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por causa disso, dessa incapacidade de confessar a sua miséria de desempregado, saía todos os dias de casa, a mala lancheira na mão, o eléctrico de Alcântara apanhado à hora certa, vindo a pé, calçada abaixo até à primeira paragem, pelas sete da manhã. Sentado na mesa da sua exígua cozinha, cabisbaixo como se habituara a ser, arcando em si a infelicidade explorada de toda a sua classe, sorvia as sopas de café como mata-bicho, o rádio baixinho para não acordar os vizinhos, as primeiras notícias da manhã a revoltá-lo o suficiente para o resto do dia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Fora assim, este ritual matutino, toda a sua vida activa e era agora o que preenchia, com o sempre igual da rotina, o vazio da ociosidade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A diferença só acontecia quando, chegado ao seu posto de trabalho, já o fato-macaco envergado, se cruzava com a sua solidão. Logo ao franquear do portão, já não estava, como anos a fio estivera, o guarda do turno da noite, olhos encovados à espera de ser rendido, um hálito notável a bagaço, a sua companhia nocturna, o Alves, que deambulava agora, vadio entre os bancos de Belém e a varanda da sua casa, prisioneiro de olhar distante, um cigarro apagado nos lábios, alças de camisola interior todo o ano, o peito encostado às costas da cadeira, sentado ao revés, as mãos sob o queixo, a imobilidade perpétua dos que já cá não estão se não na contemplação angustiosa do que ainda resta.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No armazém do nada, resto da fábrica de coisa nenhuma, passaria meses seguidos, sem outra missão que não fosse a de guardar, sem nada já que se guardasse.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas foi num dia,um dia que parecia ser, como tantos outros seus antecedentes, igual e como eles indiferente, que tudo aconteceu: uma ideia, vaga e incómoda, visitou-o, como se uma aparição etérea o tivesse possuído: olhava para o tecto do enorme espaço que era o hangar, já escurecera, o dia invernoso, daqueles em que anoitece mais cedo e eis que uma luz, vinda do céu, o atingiu, talvez o refulgir de uma estrela inesperada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tinha-se deixado ficar para além da hora, ébrio de pensamentos e de estranhos presságios.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em redor, o trânsito começara já a abrandar, e com isso a noite ganhara presença, inundando-lhe o interior e restituindo-lhe uma estranha paz que nunca sentira.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um desejo de ficar tomou então conta de si. Não tendo ninguém em casa, liberto de ter de dar uma explicação para a sua demora, o seu lugar era ali: encostado a uma parede, os pés estirados, adormeceu profundamente, cansado como nos velhos tempos de corpo sovado pela labuta diária, na hipnose de olhar o céu.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sonhou, ele que nunca mais sonhara desde miúdo, para quem a cama era um lugar de alienação e de perda de tempo, um intervalo necessário quando esteve doente e raramente estava doente, o dormir um luxo de que os trabalhadores, condenados ao madrugar, estavam roubados pelos exploradores do seu trabalho.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Conduzido pela fantasia, sem que a sua vontade domesticada pudesse interferir, levantou-se, como um real sonâmbulo e, pela primeira vez, aquele hangar vazio, aquelas madeiras empilhadas ganharam um significado e um sentido e a sua pessoa uma dimensão outra, que nunca julgara possível e para a qual uma irresistível força o empurrava, como se levitando aquém dos limites do real.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Começou nesse dia a construção do que viria a ser uma das mais magníficas catedrais que o espírito humano havia concebido, lugar de culto de uma religião sem deuses, a sagração do espírito e a sua hossana ao mundo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Dia após dia, surgiram, edificadas, as paredes altaneiras, o edifício escorado sob o travejamento que lhe sustentava o equilíbrio.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Primeiro a nave central, traçada a fio no chão, longilínea a todo o comprimento do espaço disponível, medida a passo até ao cruzeiro onde lhe surgia, atravessando-a, o transepto, essa forma de o edifício ser ele próprio o símbolo da persignação.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Esforço de gigante, a sua idade a pesar-lhe como as madeiras às costas, alçava-se a pulso nos andaimes vendo-a de cima, na vertigem da sua caminhada ascendente, a arquitrave que lhe daria o remate das colunas do oriente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Alquebrado, colado, como se cozido às paredes do hangar de onde tudo surgia e se erguia, pois mal lhe restava caminho por onde andar, movimentando-se como réptil sob a imensidão da sua obra, acocorando-se e ajoelhando-se, rojando-se mesmo, humilde, aviltado o ser, havia um homem que definhava para que a obra nascesse.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Foi na noite escusa do construir secreto da abóbada, em que o trabalho não pára por não poder parar, os arcobotantes a segurar-lhe a consistência do construído, que começou a retirar, telha a telha, a cobertura do hangar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Noite de vento, prenúncio uivante da tragédia, entre os elementos furiosos que quase o arrancavam dali, vime seco de um mundo vegetal já morto, prosseguiu, metódico, persistente, a raiva mordendo-lhe a alma, o seu trabalho, abrindo espaço para o surgimento da obra.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pela madrugada surgia, majestoso, o pináculo final, uma flecha erguida aos céus, o remate final do seu trabalho.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Abaixo, vista daquele ponto de remate, a sua galeria de imagens, talhadas durante os anos do seu desemprego, recortadas no tosco em madeira doce a golpes de formão e aplainadas com a minúcia manual da sua grosa, amiga e companheira que tantas vezes, escapando-se, distraída, lhe mordera as mãos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando foi encontrado morto, no alto da sua tresloucada edificação, a cidade embaraçada tinha, na zona oriental a Xabregas, como se a encomendá-lo, num defunctis pagão, todo o exército silencioso dos seus santos, os heróis do trabalho, mártires da Revolução, os apóstolos do ideal redentor que professara. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-6962695216001978905?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/6962695216001978905'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/6962695216001978905'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2010/05/o-marceneiro-mistico.html' title='O marceneiro místico'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04958970604904404916</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/StnoYUEKJyI/AAAAAAAAAJo/s7zZPLEYW80/S220/JAB-59A.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-8207391777430965064</id><published>2010-04-26T19:43:00.000+01:00</published><updated>2010-04-26T19:43:05.554+01:00</updated><title type='text'>A ingovernável vontade</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tinha-lhe regressado a ingovernável vontade de rir. Rir do mundo na sua generalidade, de ser redonda a Terra e nos pólos achatada e das estrelas que, sendo imóveis, pareciam planetas. Rir dos outros e cada um dos que eram a materialização do outro, como a senhora esquálida de vestidinho malva e mangas tufadas os bracinhos de polvo escondidos, a mão ossuda, rapace, anquilosada, no banco dos palermas do autocarro apinhado. Rir, rir sempre, rir sem dentes, sem boca e sem língua, rir sorrindo, rir num esgar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tinha reaprendido a arte do riso, a técnica da hilaridade, o modo de escancarar gargalhada. Naquela manhã saíra mais cedo para a rua, ultrapassando a miséria em que antes tropeçara, a do lixo por recolher, evitando, numa gincana sabida, os mendigos e os mal enjorcados, a pedirem remendo ou ferro de engomar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Diante de si a cidade, a mesma cidade em que nascera, para a qual se dirigia todas as manhãs, regularmente, a cidade sorumbática e indisposta, a dos ensonados, ruminantes de noites mal dormidas ou pior passadas, a exalar o mofo de alcovas enfadonhas e o odor sintético de duches despertadores.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Conseguira encontrar na sua cara uns outros olhos, no seu rosto um esgar aberto sem rugas e, sobretudo, uma nova forma de estar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Foi por isso, nesse outro mundo, que o mundo lhe surgiu na forma de um aflitivo chiar, um estrondo sentido como se em outro instantaneamente a rachar-lhe a cabeça. Horas depois, removidos os salvados, levado o corpo, enxaguado o sangue no pavimento, a cidade ria, rendida à ingovernável de rir. Louco de tão senil, saira à rua nu da cintura para baixo e assim se fora as pernas esfaceladas.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-8207391777430965064?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/8207391777430965064'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/8207391777430965064'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2010/04/ingovernavel-vontade.html' title='A ingovernável vontade'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04958970604904404916</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/StnoYUEKJyI/AAAAAAAAAJo/s7zZPLEYW80/S220/JAB-59A.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-6996935748707076113</id><published>2010-04-25T07:30:00.001+01:00</published><updated>2010-04-25T07:33:00.778+01:00</updated><title type='text'>O animal regurgitante</title><content type='html'>Saturam&lt;br /&gt;os textos lamurientos&lt;br /&gt;a escorrer lamentos&lt;br /&gt;tanto quanto&lt;br /&gt;os casais quezilentos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saturam&lt;br /&gt;as dores e enfastiam as mágoas&lt;br /&gt;as primeiras porque males presentes&lt;br /&gt;estas porque&amp;nbsp;mal passado&lt;br /&gt;que teima em apresentar-se&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saturam &lt;br /&gt;os gatos-pingados e o conteúdo funéreo de suas vidas&lt;br /&gt;acompanhantes tristonhos de passeios funestos&lt;br /&gt;convivas do forçado encontro&lt;br /&gt;de onde se não volta, aliás&lt;br /&gt;e de onde regressam&amp;nbsp;todos os circunstantes&lt;br /&gt;para os risos e desenganos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saturam &lt;br /&gt;os hospitais e assépticas coisas que tais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Satura a precariedade e o consequente feio&lt;br /&gt;o intervalo prolongado que é continuar-se assim&lt;br /&gt;cada vez mais tolerado &lt;br /&gt;e a rir-se um homem desdentadamente &lt;br /&gt;e sem saber&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Satura a prosa e enjoa a poética&lt;br /&gt;Endoidece o silêncio e assassina o verbo&lt;br /&gt;morre-se de raivosa congestão vocabular&lt;br /&gt;como há quem viva na&amp;nbsp;doce anemia do analfabetismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saturam e enjoam&amp;nbsp;todas estas as coisas vomitáveis&lt;br /&gt;que se mastigam no&amp;nbsp;quotidiano&lt;br /&gt;e se ruminam como memória&lt;br /&gt;regurgitadamente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-6996935748707076113?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/6996935748707076113'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/6996935748707076113'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2010/04/o-animal-regurgitante.html' title='O animal regurgitante'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04958970604904404916</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/StnoYUEKJyI/AAAAAAAAAJo/s7zZPLEYW80/S220/JAB-59A.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-4333590739674973424</id><published>2010-04-18T19:34:00.001+01:00</published><updated>2010-04-18T19:40:43.389+01:00</updated><title type='text'>Poema da eterna saudade</title><content type='html'>Davam-lhe ao domingo saudades&lt;br /&gt;saudades quando estava frio e o gradeamento o separava de&lt;br /&gt;todos os demais;&lt;br /&gt;saudades mesmo sem ser domingo quando &lt;br /&gt;iam todos de visita com ele a ficar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Davam-lhe saudades ao sábado&lt;br /&gt;por amanhã ser domingo&lt;br /&gt;e saudades em todos os dias que paravam&lt;br /&gt;e deixavam de ser dias&lt;br /&gt;para passarem assim a mais um dia que passa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Davam-lhe saudades, saudades de casa como todos os desarranchados&lt;br /&gt;os do colégio interno, os presos e os exilados,&lt;br /&gt;os sozinhos numa pensão&lt;br /&gt;os não menos sozinhos em luxuoso hotel de luxo;&lt;br /&gt;saudades como só sentem os que não têm,&lt;br /&gt;saudades como só sabem os que as têm.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, porém, dia frio também &lt;br /&gt;igual a tantos outros&lt;br /&gt;em que o sol se escondera &lt;br /&gt;e as horas se aumentaram&lt;br /&gt;descobriu&lt;br /&gt;a íntrinseca natureza&lt;br /&gt;a recôndita característica&lt;br /&gt;o verdadeiro âmago e essência afinal&lt;br /&gt;das saudades de casa&lt;br /&gt;que eram, enfim,&amp;nbsp;saudades de ter casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Davam-lhe ao domingo saudades.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-4333590739674973424?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/4333590739674973424'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/4333590739674973424'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2010/04/poema-da-eterna-saudade.html' title='Poema da eterna saudade'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04958970604904404916</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/StnoYUEKJyI/AAAAAAAAAJo/s7zZPLEYW80/S220/JAB-59A.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-8492027662049934920</id><published>2010-04-17T18:13:00.001+01:00</published><updated>2010-04-17T22:39:53.876+01:00</updated><title type='text'>Aviso à navegação</title><content type='html'>&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #333333; font-family: &amp;quot;lucida grande&amp;quot;, tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 13px;"&gt;&lt;br /&gt;Acorda um homem e sentado está&amp;nbsp;ainda&amp;nbsp;a meia nau&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="color: #333333; font-family: &amp;quot;lucida grande&amp;quot;, tahoma, verdana, arial, sans-serif; font-size: 13px;"&gt;o rebordo da cama balaustrada de barcaça é-lhe arrimo e jangada&lt;br /&gt;e o lençol vela enfunada de noite naufragada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acorda um homem, os pés incertos e as estrelas dormentes,&lt;br /&gt;acorda entre os escarpados do sono, os olhos indecisos&lt;br /&gt;e o falar nublado as ideias turvas&lt;br /&gt;e no resto diminuto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acorda um homem, a alma em naufrágio&lt;br /&gt;e da passarada ei-lo &amp;nbsp;o grito esganado de madrugada.&lt;br /&gt;E no convés retesado o cordame chia&lt;br /&gt;e a alma dói, orça em baloiço o desejo &lt;br /&gt;acorda sim e no horizonte, enfim, o arvoredo,&lt;br /&gt;da alucinante ilha frondosa que será destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acorda um homem errante passageiro e nauta&lt;br /&gt;vindo à terra do acaso e na hora possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acorda um homem na terra de ora em diante&lt;br /&gt;e no horizonte móvel que é certeza&lt;br /&gt;acordado já da bruma faz casa, e com o enevoado lar,&lt;br /&gt;e da ondulação sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordou um homem e em ti edifica vida&lt;br /&gt;e vivê-la-ão assim entre enseadas e sol,&lt;br /&gt;o corpo sedento de sal e por ele sequioso,&lt;br /&gt;a alma vogando e a brisa por companhia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acorda um homem encharcado de céu e do mundo ressequido.&lt;br /&gt;E a noite dorme e o dia dormita e o irradiante sol e tantas árvores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adormecerá um homem, anoitecido, passageiro fluvial em terra&lt;br /&gt;com destino a uma vida sem mar.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-8492027662049934920?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/8492027662049934920'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/8492027662049934920'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2010/04/aviso-navegacao.html' title='Aviso à navegação'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04958970604904404916</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_vRvBp7IOHm4/StnoYUEKJyI/AAAAAAAAAJo/s7zZPLEYW80/S220/JAB-59A.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-6168061850354615094</id><published>2009-05-24T17:06:00.002+01:00</published><updated>2009-05-24T17:25:34.088+01:00</updated><title type='text'>É de homem!</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Decidi-me. Vou escrever sobre homens. Não é menos equívoco, mas dá mais sossego. O homem da banca ali dos jornais, por exemplo, as mãos negras de informação escorrente na conta-corrente do que hoje jornal amanhã lixo: matutino, olheirento, crescem-lhe varizes nas pernas de horas muitas no cubículo do seu quiosque. O homem que avia bicas e imperiais, garotos escuros e outras ambiguidades açucaradas, para quem o balcão é o limite e a sport-tv companhia: nasce-lhe todos os dias uma vontade de praia e campo ao abrir taipais pelas seis, hora de regresso para os que fazem da noite horário. O homem da vizinha e o homem que não quer saber da vizinha. O homem ansioso de homem e o homem desumanizado. Talvez a literatura lhes deva algum favor, o de fazer deles criaturas nas suas histórias, dar-lhes a oportunidade de serem gente no mundo dos enredos. Brutos quando amáveis, estúpidos quando enganados, deles não se dirá sem olhar oblíquo que são meigos nem que são sensíveis sem passar pelo que não se é. Vou pois escrever sobre homens. Era uma vez um homem. É uma forma de começar. Desde que a história não seja triste, talvez haja leitores. Era uma vez um homem que se fartava de rir. Fatada?&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-6168061850354615094?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/6168061850354615094'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/6168061850354615094'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2009/05/e-de-homem.html' title='É de homem!'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10270004027333633699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_A8MFNq34JL4/Ss2A1yb1VjI/AAAAAAAABF8/jPXtidUhVgw/S220/JAB-59A.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-8662027284709400540</id><published>2009-01-11T18:37:00.008Z</published><updated>2009-01-11T19:32:49.986Z</updated><title type='text'>O interstício de claridade</title><content type='html'>Há&lt;br /&gt;em todas as peregrinações&lt;br /&gt;e em todas as viagens&lt;br /&gt;o momento tardio&lt;br /&gt;em que sem sol&lt;br /&gt;ou interstício já de claridade,&lt;br /&gt;sem um instante de grandiloquência&lt;br /&gt;ou uma eternidade de aborrecimento&lt;br /&gt;um homem,&lt;br /&gt;de tantos homens semelhante&lt;br /&gt;e, afinal, na sua individualidade, único,&lt;br /&gt;sentado na mala do seu passado,&lt;br /&gt;chega ao cais de um qualquer destino.&lt;br /&gt;Podia ser&lt;br /&gt;precisamente a esta hora,&lt;br /&gt;em que a noite cresce,&lt;br /&gt;a chegada de navio a um qualquer porto de águas sujas&lt;br /&gt;infestado de calor porco, moscas vorazes e mulheres a desbarato&lt;br /&gt;um porto de um cais de uma cidade,&lt;br /&gt;de um não importa qual país;&lt;br /&gt;suado&lt;br /&gt;escuso como noctívago contrabandista&lt;br /&gt;bocejante como um turno de domingo&lt;br /&gt;esse homem corporiza em si&lt;br /&gt;a ânsia de partir.&lt;br /&gt;Para trás dele,&lt;br /&gt;na amurada do adeus adeus,&lt;br /&gt;ficaram todos os que nunca chegarão,&lt;br /&gt;o lenço num aceno ao abandono,&lt;br /&gt;os nautas da improvável viagem.&lt;br /&gt;Esse é, na exactidão do firmamento,&lt;br /&gt;o momento tardio,&lt;br /&gt;quase o instante derradeiro&lt;br /&gt;em que um homem chega&lt;br /&gt;a destino sujo vindo de uma vida vil.&lt;br /&gt;Esse é o começo da sua partida infinda,&lt;br /&gt;nómada sentimental.&lt;br /&gt;Ante os seus olhos,&lt;br /&gt;emigrante e exilado,&lt;br /&gt;viajante e andarilho,&lt;br /&gt;momentaneamente escuso,&lt;br /&gt;semi-tapado pela escotilha do convés&lt;br /&gt;um relógio marca impossíveis horas&lt;br /&gt;de um tempo inescapável.&lt;br /&gt;E, no entanto,&lt;br /&gt;paradoxo da Razão,&lt;br /&gt;funciona,&lt;br /&gt;na lógica de toda a sua mecânica,&lt;br /&gt;certa, exacta, de uma rigorosa e calibrada&lt;br /&gt;inutilidade,&lt;br /&gt;máquina de contar o intervalo e mostrar a distância&lt;br /&gt;concerto de rodas dentadas, ponteiros,&lt;br /&gt;e tantos outros mquinismos,&lt;br /&gt;a síntese da loucura humana,&lt;br /&gt;de capturar o Futuro, perseguindo-lhe a fuga pelo caminho solar.&lt;br /&gt;«Que horas são», pergunta o exaurido passageiro.&lt;br /&gt;«Dez da noite», respondem-lhe do anonimato que se acotovela&lt;br /&gt;figurantes de uma antecipada insónia&lt;br /&gt;e suas formalidades aduaneiras,&lt;br /&gt;o zero humano de todos os sequiosos de terra&lt;br /&gt;mais os saturados de mar.&lt;br /&gt;Nessa noite, a lua iniciava um novo ciclo,&lt;br /&gt;a caminho do seu apogeu de opulência,&lt;br /&gt;erguendo-se&lt;br /&gt;orgulhosa de esplendor,&lt;br /&gt;nos céus incendiados daquele antro de festim.&lt;br /&gt;A grande resignação abateu-se, enfim,&lt;br /&gt;mãe e amiga, sobre todos eles,&lt;br /&gt;apiedando-se do seu medo de existirem.&lt;br /&gt;Uma hora depois,&lt;br /&gt;solto o portaló&lt;br /&gt;e terminada a amarração,&lt;br /&gt;formava-se a longa fila&lt;br /&gt;da manada de emigrantes e outros sem destino certo.&lt;br /&gt;Sob uma luz doentia,&lt;br /&gt;a indiferença vigilante&lt;br /&gt;mirava-os de soslaio,&lt;br /&gt;o carimbo suspenso,&lt;br /&gt;uma vida em hesitação.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-8662027284709400540?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/8662027284709400540'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/8662027284709400540'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2009/01/o-interstcio-de-claridade.html' title='O interstício de claridade'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10270004027333633699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_A8MFNq34JL4/Ss2A1yb1VjI/AAAAAAAABF8/jPXtidUhVgw/S220/JAB-59A.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-9160006636246345378</id><published>2008-11-14T22:00:00.003Z</published><updated>2008-11-14T22:12:05.775Z</updated><title type='text'>O homem que sublinhava a vida</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Sublinhava livros para se lembrar do que lera e agora já nem se lembrava de os ter lido. Os livros amontoavam-se ao alcance da mão, ladeando a cama. Lia livros para saber como era a vida e a vida amontoava-se, sublinhando-lhe a lembrança com a perda da memória. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Durante a noite de hoje entretivera-se, nocturno, a iludir o cansaço organizando, meticuloso, a biblioteca já lida e a biblioteca ainda por ler. Misturara tudo por não compreender a distinção entre o esquecido e o não sabido.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sentara-se então, hesitando entre o que ler e o deixar a leitura para amanhã. O sono interveio, amigo, a alquebrar-lhe a resistência. Mais em baixo, na rua, enxergava-se o sem fim da avenida, rápidos os automóveis de incógnita viagem. Acordaria pelas quatro da manhã, uma folha aberta, incompreendida já pela dormência. Sublinhava livros.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-9160006636246345378?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/9160006636246345378'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/9160006636246345378'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2008/11/o-homem-que-sublinhava-vida.html' title='O homem que sublinhava a vida'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10270004027333633699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_A8MFNq34JL4/Ss2A1yb1VjI/AAAAAAAABF8/jPXtidUhVgw/S220/JAB-59A.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-2412829753693056592</id><published>2008-10-01T19:46:00.003+01:00</published><updated>2008-10-01T19:49:50.861+01:00</updated><title type='text'>O cortante horizonte</title><content type='html'>Alado, a imensa asa roçagante pela linha cortante do horizonte, um pássaro sangra-se em poente. Consumido pelo sol serão, sob o olhar enamorado da lua, as suas cinzas a promessa de um infinito luar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-2412829753693056592?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/2412829753693056592'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/2412829753693056592'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2008/10/o-cortante-horizonte.html' title='O cortante horizonte'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10270004027333633699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_A8MFNq34JL4/Ss2A1yb1VjI/AAAAAAAABF8/jPXtidUhVgw/S220/JAB-59A.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-6291218244687659396</id><published>2008-09-26T22:33:00.002+01:00</published><updated>2008-09-26T22:54:44.457+01:00</updated><title type='text'>De todos indiferentes</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Estava sentado na cama, as pernas recolhidas, sentindo áspero dos calcanhares como uma lixa na maciez da pele, os joelhos masssacrados de doerem, uma ligeira caimbra pela incómoda da posição, um ligeiro torpor de sono, o cansaço no colo na form de um livro de leitura por acabar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;No tecto uma luz hesitante mal projectava a sombra da lâmpada que a gerava, a luz da mesinha de cabeceira definitivamente avariada. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Vinda da contígua retrete um hálito a desinfectante. Não havia lugar recôndito onde se respirasse outra coisa para além da sordidez que habitava aquele local, empestando-lhe as paredes.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Foi então que a vi, hesitante, como se tivesse olhos para me ter visto, um dorso luzidio a assinalar-lhe a presença, ensaiando uma corrida para se proteger do perigo circundante.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Afinal eu mais não era do que um viajante de ocasião, surpreendido pela noite e pela chuva, as meias e cuecas lavadas no mesmo lavatório onde um gotejar audível marcava uma canalização moída pelo uso e seus despejos, o sarro junto ao ralo uma limpeza descuidada, rotineira entre mudas sucessivas de lençóis. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Poderia tê-la esmagado, fazendo estalar sob a sola do meu sapato aquela rígida carapaça, que era o elmo que a protegia do mundo, o modo que encontrara de se defender dos humanos. Não sei sequer porque não o fiz. Hoje esconde-se debaixo da cama, quando não foje pelos canos entupidos e pestiletos, as tacteantes patinhas, de todos indiferente e da cidade alheada.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-6291218244687659396?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/6291218244687659396'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/6291218244687659396'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2008/09/de-todos-indiferentes.html' title='De todos indiferentes'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10270004027333633699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_A8MFNq34JL4/Ss2A1yb1VjI/AAAAAAAABF8/jPXtidUhVgw/S220/JAB-59A.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-7999909346046185299</id><published>2008-09-25T01:37:00.002+01:00</published><updated>2008-09-25T07:34:23.296+01:00</updated><title type='text'>A dispersa memória</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Cruzadas as mãos, sobre o colo apoiadas, os olhos firmados no indeterminado horizonte, o pensamento ausente, era ela, a improbabilidade de si na exactidão do momento.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tinhamo-nos visto anos antes, muitos anos idos, resquícios tudo isso agora de uma dispersa memória, lembrança esburacada feita de ausências, de desejos por realizar, fantasias de uma outra forma de ter vivido. Regressei, ao vê-la, ao tempo dos quartos alugados, os carinhos de ocasião.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Inseguro quanto a ter-me reconhecido, sentei-me, duas filas atrás, a mole humana como paliçada protectora da minha vergonha, esse modo decente de serem os remorsos um simples rubor de timidez. No fundo eu fugia ao que tinha sido.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Notei-lhe a saia poída, o casaco sobejando ao corpo emagrecido, os lábios mirrados pela desdentação. Ao vestígio de um brinco rendilhado sucedia agora, molemente pendente, um lóbulo de orelha disforme, sozinha. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nesse tempo eu escrevia horas infinitas sob uma luz hesitante, uma nesga de janela sobre uma parede vazia como firmamento, as estrelas quando sonhadas. Regressava a casa protegido pelo seu sono pesado, a arritmia de um ressonar embalador, uma tábua junto ao aparador a chiar, lágrimas pela minúscula casinha de jantar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Uma vez por mês fazíamos contas da minha hospedagem. Olhava-me então com a censura do olhar de quem precisa de ceder o corpo por necessidade, ao franquear a porta de sua casa a um qualquer outro que podia nem ser eu. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um dia de descuido parti-lhe desengonçada jarra que a ausência de flores condenava ao ridículo. Ainda hoje recordo o estridente dos cacos, como uma gargalhada pelo chão. «Desculpe-me», disse-lhe tartamudeando o meu embaraço. «Eu pago». Devolveu-me o infinito de uns olhos já sem cor como desprezo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Vi-a hoje. Vivia agora à mercê do acaso. Ao último hóspede sucedeu fecharem-lhe a casa. Cruzámo-nos na saída. Indiferente a todos, estendeu-me a mão como se a um qualquer outro, não num cumprimento, mas a pedir. Paguei-lhe, generosamente, a jarra, as gargalhadas, o corpo e a necessidade, a alma e os remorsos, o pensamento ausente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-7999909346046185299?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/7999909346046185299'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/7999909346046185299'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2008/09/dispersa-memria.html' title='A dispersa memória'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10270004027333633699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_A8MFNq34JL4/Ss2A1yb1VjI/AAAAAAAABF8/jPXtidUhVgw/S220/JAB-59A.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-3792377242679647693</id><published>2008-09-20T21:08:00.005+01:00</published><updated>2008-09-20T21:33:20.724+01:00</updated><title type='text'>A paragem na Avenida</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Passava, aninhada no transporte público, tendo no casario em frente uma janela como horizonte, o haver nela luz, companhia. A seu lado os prisioneiros da monotonia seguiam, enlatados, para os trabalhos enfadonhos a que chamavam empregos, vindos de antros de aborrecimento a que chamavam lares. Indiferentes, sem saberem, amuados, o que é o amor feito de olhos ansiosos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Naquela rua, mudava de transporte, seguindo em linha recta, em outra lata motorizada igual, uma das que se chamam autocarro. No além da janela, mesmo havendo luz, podia estar ninguém. A esperança de uma presença era a força que lhe fazia bater o magnífico e carinhoso coração.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Num casquinar de estridência um horrendo «olhem, olhem» acordou-os a todos: «o homem está em pelota!», grunhiu-se do banco dos palermas, à ré. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;À janela, pois, imagine-se, na cidade de Lisboa, a paragem em frente não detinha o exibicionismo imparável. «Um vaidoso», diria um, num ruminar anónimo, a mão filada na balaustrada, para evitar os sacões daquele rodinhas da senhora Carris, «um nojo!», vociferava outra, o repúdio nascido das ânsias por não ter visto.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-3792377242679647693?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/3792377242679647693'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/3792377242679647693'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2008/09/paragem-na-avenida.html' title='A paragem na Avenida'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10270004027333633699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_A8MFNq34JL4/Ss2A1yb1VjI/AAAAAAAABF8/jPXtidUhVgw/S220/JAB-59A.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-5496726705159804784</id><published>2008-09-01T05:40:00.003+01:00</published><updated>2008-09-01T05:47:18.348+01:00</updated><title type='text'>Não se brinca com facas</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Próximo, o momento mais perigoso do dia, a hora exacta de amanhecer; a noite pode roubar-nos tudo, sub-reptícia, emboscada, surpreendendo-nos no sono, hipnotizando-nos no sonho, a noite pode transmutar-nos e acordar-se disforme, revoltoso, olhar-se para a insuportabilidade de todas as coisas com as quais se viveu em soporífera indiferença&lt;br /&gt;Sentei-me, esgotado da vigília. Olhei longamente a rua comprida, o olhar distante, um automóvel rumo ao infinito horizonte. Voltei a sentar-me, a cama meticulosamente feita e em frente dela a pequena secretária arrumada até ao pormenor, totalmente inútil, o tampo coberto de livros, papéis, bugigangas, sei lá&lt;br /&gt;As luzes de cena vão enfraquecendo, um candeeiro apenas para vencer a escuridão, a luz quebrada, o pesado reposteiro&lt;br /&gt;Há quantas horas estou aqui? Que noite é esta, estrangeira, que me cerca ainda, pegajosa noite, a impossível noite, a de que vejo a silhueta do seu fim, a progressiva madrugada? De quantos dias são feitas tantas horas, e quantas horas faltam para estes dias, estou tão cansado dos olhos e de tanto ver&lt;br /&gt;E a dor, a persistente dor, a mão aberta em leque sobre o dorso, tacteio, a zona dos rins, uma faca aguda cravada aqui, um estilete, dói-me, espreguiço-me, estou sem um sapato, desequilibrado, coxo e uma perna dormente descalço-me, não andes descalço que te constipas, tantas vezes me constipei em garoto, não, agora já não tenho anginas, cortaram-me as amígdalas, há quantos anos que sou grande, mas agora é só esta dor, há quantas horas já é noite e quanto até que chegue o fim da noite e quanto falta para todos os dias, amanhã tens de acordar cedo, andas a dar cabo de ti meu rapaz, eu sei&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;[continua&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#6633ff;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;a href="http://jabcontinuando.blogspot.com/2008/09/no-se-brinca-com-facas.html"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff0000;"&gt;aqui&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;]&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-5496726705159804784?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/5496726705159804784'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/5496726705159804784'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2008/09/no-se-brinca-com-facas.html' title='Não se brinca com facas'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10270004027333633699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_A8MFNq34JL4/Ss2A1yb1VjI/AAAAAAAABF8/jPXtidUhVgw/S220/JAB-59A.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-2554569110627845759</id><published>2008-07-30T17:21:00.009+01:00</published><updated>2008-08-02T01:19:44.006+01:00</updated><title type='text'>Uma carta de amor</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Meu filho, escreveu ela, a mãe ausente, há momentos em que damos conta do que fizemos ao termos dado vida ao que de nós nasceu. Talvez hoje, por estar um dia feio e breve e anoitecer mais uma vez sem que eu saiba quantas mais, por chegar a insónia e o telefone não tocar. Talvez por ter chuviscado. Chega-se a um tempo em que tudo é indiferente à tristeza.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Houve tempos em que lia e enganava o estar sozinha tendo os livros por companhia. Foram amarecelendo, a estante cada vez mais inacessível, as letras mais sumidas aos olhos, como se deles fugissem.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Houve tempos em que esperei que qualquer estranho me animasse a alma mirando-me o corpo. Depois fui envelhecendo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Dentro de dois dias será domingo. Vinhas por sistema ao domingo, primeiro só, quantas vezes acompanhado mas só, quantas outras sem ninguém para que eu não percebesse que sozinho estavas com mais uma nova companhia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Meu filho, faz hoje anos que primeira vez te levámos à escola, nessa altura ainda havia o teu pai.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ficou e ainda hoje se não apagou a lembrança do teu olhar, a censura, o medo, o anseio. Depois alguém te recolheu e o mundo tomou conta de ti. Nesse dia deixaste de nos pertencer. Lembrei-me isto e fui a uma gaveta onde ficaram bugigangas que são o que sobeja da tua presença e está lá num caderno de folhas brancas - terás sido ensinado pela professora, que interessa - o primeiro de tantos outros desenhos, o de uma flor e por baixo, numas maiúsculas incertas, disformes, vincadas aqui e quase imperceptíveis ali, os traços de letras que todas juntas foram a palavra «a-m-o-r». &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Nesse dia, chegada a noite, o teu pai indiferente do outro lado da cama como se do outro lado do mundo estivesse, perguntava-me sonâmbulo: &lt;em&gt;que se passa para estares agora a chorar&lt;/em&gt;? &lt;em&gt;Apaixonei-me&lt;/em&gt;, disse-lhe. &lt;em&gt;Disparate&lt;/em&gt;, respondeu, sem um esgar de ciúme sequer.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-2554569110627845759?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/2554569110627845759'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/2554569110627845759'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2008/07/uma-carta-de-amor.html' title='Uma carta de amor'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10270004027333633699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_A8MFNq34JL4/Ss2A1yb1VjI/AAAAAAAABF8/jPXtidUhVgw/S220/JAB-59A.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1877218905286933770.post-3085219857938245489</id><published>2008-03-01T23:58:00.005Z</published><updated>2008-08-30T00:24:21.762+01:00</updated><title type='text'>Exaustos os sentidos</title><content type='html'>Da janela do meu quarto, que se resume a pouco mais do que uma janela, em torno da qual tudo vive e tudo nasce, os sonhos, as ilusões, os anseios mesmo, da janela do meu quarto, dizia eu, que quase nem quarto tenho e raramente abro a janela; da janela do meu quarto, queria eu dizer, que hoje nem sei o que quero e nem sequer o que digo, da janela do meu quarto há o local distante que se vê e que eu sinto quando não vejo, que se chama o mar.&lt;br /&gt;E se da janela do meu quarto eu visse, como afinal se pode ver, o mar e mais o céu, e o que por ele se alcança, eu não teria esta noite que sonhar-te aqui, terra longínqua, trancado por dentro do quarto e de mim, de janelas cerradas e luz apagada, sem outra companhia que a minha, sem outra invenção do que a tua.&lt;br /&gt;Mas da janela de mim que sou eu, vejo e sinto, diria mesmo que pressinto mais que mar e céu, ou a terra que me sobeja, todas as embarcações passí&amp;shy;veis de navegar, botes e galeras, escunas e galeões, lenhos toscos e naus aparelhadas, portentosas fragatas mesmo, vapores ufanos e pirogas primitivas e sinto, alagado já na ossada, nas entranhas do ser, o furor marítimo a afogar-me e a força de uma corrente a sugar-me.&lt;br /&gt;Na aflição marítima que me arrebata, digo e grito e sobressalto-me, berra-se na amurada, corre-se pelo convés, é a hora e vem a manhã e com ela a brisa e a maré do instante de partir!&lt;br /&gt;Alce-se o pano, rodem-se cabrestos e solte-se âncora, orce-se a estibordo! Lá longe, na névoa do horizonte, há a certeza da tua existência. Aqui, ao frio gélido da manhã, há a certeza de navegar!&lt;br /&gt;Que os deuses nos acompanhem e destino e viagem se encontrem!&lt;br /&gt;Da janela do meu quarto, eu vejo um barco a sair e uma infinita tristeza de mim, desfaz-se enfim em viagem.&lt;br /&gt;Longe, envolto no xaile do medo, fica o mundo do adeus, gente que se abeira deste molhe nas horas sentidas do entardecer, e que mira, de olhos nocturnos o longínquo infinito, como se o não visse ou ele fosse apenas imóvel ponto ou até coisa nenhuma, o vazio no olhar e como nele me represento, a ausência de tudo e a presença do nada.&lt;br /&gt;É a geração dos que foram, a alma dos que poderiam ter ido. A saudade é neles o repetido desejo de nunca ter nascido. No tédio, no descolorido de vida, tudo o que a vista alcança, tudo mesmo o que lhes chega através de todos os sentidos, não lhes parece real, mas sonhado, não lhes parece ganho, mas dado, não lhes parece merecido, mas roubado.&lt;br /&gt;Só há mar incógnito na terra monótona, nas horas sentidas do poente, tudo o mais este molhe é o imóvel ponto e o longe a desejar-se.&lt;br /&gt;Eis o mundo que eu entendo menos com a cabeça, que tudo compreende, mas com o coração que tudo sente, o mundo que pressinto e o que adivinho. É assim que antecipo o futuro no presente, imaginando-o como o desejaria e confortando-me, antecipado, se ele vier adverso.&lt;br /&gt;Deste lugar diviso-o ao horizonte móvel e por isso inatingível e nele o fim dos dias, em cada tarde: é essa a tristeza do ocidente, o ser poente.&lt;br /&gt;Um vento desconfortável faz-me recolher. Talvez amanhã eu acorde tarde e me poupe assim ao regresso da luz.&lt;br /&gt;Nessa noite morreu-se no mar.&lt;br /&gt;Na sua frágil traineira, sugada pelo fatal remoinho, enlouquecido pelo volteio das estrepitosas ondas, lançava o náufrago ridículos sinais.&lt;br /&gt;Era ali, a praia à vista e sem que à praia chegasse, que tudo lhe terminaria. Um aceno na ânsia de ser visto e viam-no, agora que chegava, o momento agónico do seu morrer, um aceno lhe bastaria para finar-se em companhia.&lt;br /&gt;Na sua frágil traineira e sem à praia chegar, teimando ridículo, o náufrago morria no mar sonhando-se no céu, uma agonia em azul, o marulhar como o último dos sons a rebentar-lhe primeiro os ouvidos, a afogar-lhe por fim a possibilidade de viver. Houvesse assim, em cada fim de tudo, a grandeza medíocre de um aceno, uma mão estendida, uma tranquila praia onde tudo pudesse terminar!&lt;br /&gt;Ei-lo, morto, entre redes recolhidos, abraçado de sargaços, um choro miúdo como se uma morrinha de dor a encomendar a sua alma.&lt;br /&gt;Adormecidos, exaustos, os sentidos, uma náusea ébria toldara-lhe o entendimento. Talvez tivesse caído em qualquer momento, de que não se lembra, partidos os ossos, amassados os músculos, talvez tivesse sido a própria vida marítima a atropelá-lo, no seu passar galopante, sem o ver, o vaivém de rebocadores, o ronronar de lanchas, espreguiçarem-se os botes e outras minudências flutuantes.&lt;br /&gt;Uma dor calada afunda-se-lhe nos olhos, um sabor acre e salino agonia-lhe, na boca. Em redor, um mundo alagado de tanto chover faz-se então notar, folhas gotejantes tilintam-lhe aos ouvidos.&lt;br /&gt;Soubesse ele como tudo aconteceu, depois do momento em que, estrepitoso, o travejamento da destroçada embarcação, estalando-se, se abateu em cima do seu massacrado corpo. Mas não! A ausência de recordação protege-lhe a cabeça por dentro, partida que está por fora.&lt;br /&gt;Tudo começou com uma ondulação suave, puxada a vento de norte. Rumavam velozes, o pano alçado, assobiando de contentamento, como se tivessem destino certo.&lt;br /&gt;Agora está morto e só. Da tripulação do «Évora Monte» apenas o seu corpo ficou, para que em terra se soubesse como foi.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1877218905286933770-3085219857938245489?l=muralhasdosilencio.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/3085219857938245489'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1877218905286933770/posts/default/3085219857938245489'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://muralhasdosilencio.blogspot.com/2008/03/exaustos-os-sentidos.html' title='Exaustos os sentidos'/><author><name>José António Barreiros</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10270004027333633699</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/_A8MFNq34JL4/Ss2A1yb1VjI/AAAAAAAABF8/jPXtidUhVgw/S220/JAB-59A.jpg'/></author></entry></feed>
