06 fevereiro 2012

O ar irrespirável

Sábado de tarde.
Sala após sala, hoje todas vazias.
Fechadas umas, entreabertas outras, as portas dos gabinetes alinhavam-se ao longo do corredor, o dele o último, à esquerda, já houve tempos em que «o senhor doutor, lamento, mas é raro estar aqui, terá de fazer a fineza de marcar». Agora era como se não tivesse mais para onde ir, o estar equivalente a ser encontrável, a oferecer-se, estando, a que o encontrassem.
O Verão chegara antes do tempo, na forma de um fim-de-semana sem gente e de um sol a amarelecer a vida, encarquilhando-lhe os restos, assim se não fechassem nas gelosias as tabuinhas.
Nunca se sabe como se chega a ser o que se é.
Primeiro fora a lenta agonia da profissão, o mal que lhe fazia sofrê-la de dia e odiá-la de noite. Agora, como se tudo não tivesse uma história a intervalar o tempo, a tê-lo poupado ao longo e dorido acto de vivê-la, estava assim, inerte, indiferente de sentimentos, vazio de ideias.
Ficaram-lhe, nas estantes, preciosidades antigas, na forma de livros que tinham caído em desuso, a encadernação como réstia de uma importância agora ilusória. Sentado onde estava, já não conseguia ler-lhes as lombadas, adivinhando-os pelo lugar de onde há tanto tempo não saíam. Nesta tarde, neste sábado de agonia abafada, olhava-os com o gesto contido, o espírito parado, longe dali.
E, no entanto, durante tantos anos, estes livros bafientos agora, mas que já tinham sido novos e úteis e até como colegas prestáveis, tinham sido companhia, enxada, por vezes o desespero. Nalguns anotara mesmo, com caligrafia miúda, apontamentos, tantos em meias folhas de bloco, momentos de interpretação, o exteriorizar de uma dúvida, a extensão de um comentário.
Lembrou então o facto, o que esta história conta.
Talvez tivesse sido também num sábado, ou num domingo de tarde, quando ainda é pior estar-se no escritório fechado, amputada pela clausura a vida e deformado pelo isolamento o ser.
Parecia-lhe hoje tudo tão longínquo que dificilmente conseguia reter na consciência actual ou fixar na memória passada uma data para o que acontecera. Tinham-lhe ficado, porém, impressos no sentir magoado os pormenores do que sucedera, mesmo os mais insignificantes.
Esquecera-se de todo que, na segunda-feira, lhe acabaria, impreterível, o prazo de um dos poucos processos que ainda tinha; pior, o prazo para fazer o que adiara toda a semana, sem vontade, na mira de um halo de resignação que o levasse a sujeitar-se a ter de o fazer.
À força de empurrar para o fundo da memória aquela obrigação insuportável, o espírito, apiedado, fizera com que se esquecesse.
Foi pela hora de almoço que veio ao consciente de si a lembrança.
Por essa altura ainda teria família, almoçava-se muita vez perto de casa, num restaurante que se tornou impossível.
Contrariado, sentara-se, sentindo a agonia do papel em branco, a desesperante falta de vontade.
Começara com o sacramental «Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz de Direito do Tribunal Judicial de» para logo se afligir com o saber a que tribunal se deveria dirigir, entre o labirinto de regras de competências e de conflitos territoriais e o receio de que um engano, com o prazo a acabar, lhe pudesse ser fatal.
Continuou então, linha a linha, o pensamento a escorrer-lhe para o papel, o desconforto de imaginar que já nem tinha quem lhe dactilografasse o que escrevesse.
Foi então que lhe pareceu que alguém batera à porta.
Primeiro, toques tímidos, hesitantes, depois, porque a campainha não funcionava sempre naquele escritório em que, lentamente, tudo deixaria definitivamente de funcionar, um bater mais claro, mais nítido, como se um sou eu familiar, a aflição de um abre-me.
Desperto para um exterior de onde há tanto tempo quase nem o correio lhe chegava, deu consigo, os passos abafados pelo velho tapete, corredor afora, num «já vou, por favor espere», em que só a vergonha escondia a súplica murmurada do «não se vá» e a alegria gritada do «é para mim!».
Era de facto.
Morava na mesma rua, do outro lado do passeio, num andar de um prédio gémeo, dos que viram ainda passar carroças de lavadeiras e amoladores galegos, a roda de afiar e os cortadores de gaforinas ao domicílio, corte curta a franjinha que é para mais durar.
Sabia-o advogado, desde há muitos anos, vira-o no ir e vir afadigado dos tempos em que tinha pressa.
Assistira à sucessão dos seus automóveis, conhecia-lhe, como se fosse o seu, o guarda-roupa, a sucessão primeiro de roupa nova em cada estação, o estabilizar, enfim, no velho sobretudo, os sapatos amassados nos pés timoratos do caminhar miúdo.
Vizinha, partilhara o prédio e suas rendas com uma irmã, solteira como ela, anos a fio e com ele uns quantos outros espalhados, nem ao menos em propriedade horizontal, por essa Lisboa em ruínas, na Madragoa um, o mais antigo, em que uma mercearia caduca era o que sobejava de arrendável, no Alto do Pina outro, cedido, sem contrato sequer, a uma garagem de recolhas que outrora ainda fora de reparações até que o mecânico se reformara e o filho do dono se resolvera a arrendar o espaço como armazém de estacionamento.
Era a vida imobiliária que a trazia ali.
Lentamente, ano após ano, a doença da irmã, primeiro atirando-a para o desatino doméstico das atitudes incompreensíveis e depois para um lar, nas Avenidas Novas, onde foi encontrada sem sentidos num dia anónimo em que chovia, haviam feito dela o último ramo subsistente da família e a única herdeira da fortuna por dividir; mas uma fortuna em ruínas, prédios entaipados e esvaziados de uso, alguns só em paredes, como muros altos de matagais imensos e coito de vadios e indigentes sem casa e outros animais rastejantes.
Tratava-se de conseguir, por entre os labirintos da burocracia, evitando os alçapões do Direito, tornar aquele museu paleolítico, verdadeira pedreira urbana que em tempos tinha sido pequenos palacetes e geminadas moradias, algo de rentável, que vendido ao menos ao desbarato desse dinheiro para uma vida decente que a tirasse daquele envergonhado remedeio, recordações antigas como única companhia.
Negócio promissor, encontrara enfim, nos últimos dias, a solução milagrosa que a penúria lhe não permitia, na forma de um atrevido promotor que de tudo faria habitação de luxo e condomínio fechado para gente ansiosa de viver bem e temerosa de viver em insegurança.
«E em que posso ser-lhe útil», arriscou, uma bruxuleante luz a acender-se-lhe nos olhos, o velho advogado, vendo surgir-lhe ali, enfim, para os últimos anos da vida, um trabalho capaz que o devolvesse às lides, ao menos ocupação do tempo que o fizesse sentir-se um homem útil, rendimento valioso que lhe permitisse outra vez um viver desafogado.
Porque, tal como a criatura que aquele sábado de tarde lhe trouxera, como se o piedoso destino tivesse girado em seu favor a roda da fortuna, também ele era um emparedado pelos escombros do que amealhara.
Soterrado em livros que eram a arqueologia de um Direito que o tempo tornara caduco, arquivo abarrotado de processos que haviam passado de vez para o rol dos casos findos, a memória esfrangalhada de histórias de gente que já nem vivia para as poder contar.
Todos os casos em que se envolvera, os processos em que litigara, os acordos que conseguira firmar, o mais insuportável cliente e o mais rebaixado colega, a galeria dos seus horrores parecia ter-se convocado para aquela saleta poeirenta, que a luz do sol tentava abocanhar com hálito quente e devorador.
«Desculpe-me, não sei se serei oportuna, ainda por cima ao fim de semana», rápida a voz, prático o espírito, «obrigado, mas não vale a pena sentar-me, é rápido».
E de facto era: parte do negócio envolvia a venda do prédio onde estava aquele escritório, a demolição, o despejo certo, o ter de negociar com os novos senhorios, gente difícil, «desculpe-me mas compreende não é? Não temos outra alternativa e na sua idade também trabalho já não terá muito».
O estertor do silêncio deu o sinal da compreensão. A vida encarregara-se de resolver.
Saiu, tímida, hesitante, uma possível última frase por dizer, o advogado gentil a acompanhá-la à porta, mas enfim recomposta, a figura, a pose, a postura, adejando como liberta e de novo retornada aos tempos áureos, talvez mais nova não sem um «que calor está aqui, estes reposteiros não lhe tornam o ar irrespirável?».
No dia seguinte encontraram-no enforcado, a língua ridícula de grossa, o corpo a defecar-se, imundo e triste.

19 novembro 2011

Les jeux sont faits

Talvez fosse o brilho gorduroso da testa reflectido no bojo metálico da feérica máquina que o ladeava, rolando frutos e tlins, ou o sapato esquerdo mordendo-lhe o pé para lembrar que esse era maior do que o outro, desde pequenino. Ou o vago cheiro acre, exaurido o desodorizante, meio perfume barato impregnado em lânguidas carnes, disponíveis. Talvez fosse cada uma das minudências remanescentes daquela hora sombria em que os corpos são vultos e as vozes sussuros. O ronronar sonolento do ar condicionado, enfim audível na silenciosa noite e o tilintar de moedas caindo num chuveiro de estridente alegria. Ou o duvidoso olhar injectado de promessas entumescentes de uma qualquer apátrida de aluguer e já sobravam poucas, os táxis a esvairem-nas para quartos de turno rápido, aviando ilusões.
Talvez fosse isso tudo e as olheiras do croupier. Àquela hora em que já só ficam os que terão de sair sozinhos, restava o que o vício deixa para trás, passadas as enganadoras luzes do entusiasmo.
Foi então que ela entrou. Esfrangalhava-se para um dos lados, como mulher que perde do sapato um salto, e era mulher e em altíssimos saltos, um mundo em fêmea alçado em palafitas. Apostava essa noite a melhor das suas sortes. Regressara ao campo de batalha em que os amores se jogam a dados, as paixões ao azar de uma roleta. Faltava-lhe agora quem a escoltasse, o precário companheiro ou o permanente marido, contrastante em magreza e superlativo em ademanes, arauto e pregoeiro, rebocador na hora de recolher, o hálito turvo, os olhos marejados de sombras.
Sentado no seu canto, empinado na sua girafa, as pernas em arco, ele olhou-a, reconhecendo-lhe anos de distância e a razão da ausência. Estavam gastos. Talvez fosse o cabelo queimado à força de tintas, o seio tombado à força do seu peso. Talvez fosse a vida devorar a beleza cuspindo os caroços da fealdade. Não sabia. Soube sim que apostou tudo o que tinha essa noite, o corpo e a alma, a memória e a imaginação. No tapete verde do desejo, esgotaram-se-lhe as fichas. Ao saírem, a menina do bengaleiro fez de conta que aquele instante não existia. As luzes apagavam-se, mortiças, preparando-se para a sonolência tardia, na esperança do dia seguinte e para a monotonia do igual.

27 junho 2011

A rude mão

O homem vendia livros na impossibilidade de dar livros e por imaginar-se a escrever livros. E naquela folha enrugada aplicava com toda a persistência e minúcia o melhor da palma da sua mão para tentar alisá-la como com quer ao mundo retirar imperfeição ou a um semblante velho a geografia estriada de uma vida e seus vincos de expressão.
Talvez fosse aquela folha e não outra qualquer o objecto necessário do seu aplicado esforço, porque visto do umbral da porta, curvado, a tudo alheio e ao resto indiferente o homem que vendia livros parecia não ter outro mundo ou diversa preocupação. Estava absorto.
Na sua vida haviam-se multiplicado o sucesso de insignificâncias e suas derrotas. Naquela noite deixara-se ficar até mais tarde, sem se aperceber do alvorecer da iluminação pública, nem do sombrear do cúbiculo de que fazia escritório.
Foi o tinir de uma sineta que lhe despertou os olhos, não a mão mecânica e seu gesto de afago sobre a enrugada folha e seus irregulares sulcos.
A história possível a partir daqui pode ser uma de tantas histórias possíveis.
Quem tem como cena este cenário e como personagem esta criatura não precisa sequer saber quem entra naquele lugar onde a vida se pode exprimir, nem o que sucede.
Pode a história ser a da tristeza de um precioso livro desfeiteado por rude mão ou descuidada. Ou pode na história o enrugado da folha não ter outra importância que a de ser o acaso do qualquer coisa serve e surgir agora e só então a essência da narrativa e seu conteúdo.
Qualquer possibilidade é possível às mãos de quem escreve. Naquela noite ao entrar na reduzida livraria, olhando o homem, inventei-o, ali, franqueada a porta, a partir do gesto e do que se lhe poderia seguir. Ao chegar a casa teria uma história para contar não fosse ter-me esquecido do que, enrugadamente, se me amarrotou na cabeça dorida de um corpo ensonado. Penso tê-lo encontrado hoje amarrotando lixo em que se tornaram os livros que nunca escreveu e que nunca encontraram quem os quisesse.

14 janeiro 2011

A visitação da noite

Poderia ter sido o amor fulgurante, rompante súbito a implodir no coração e fazer ressaltar nos sentidos a ânsia. Ou o amor manso, ternura a sobrepor-se à pele como uma macia outra pele.
Poderia ter sido num caso a violência da paixão e seu arroubo, poderia ter sido no outro a mansidão do carinho e suas carícias.
Poderia ter sido uma longa amizade a tornar indispensável a companhia, ou uma carência a tornar necessária uma presença.
Poderia ter sido cada uma destas ou todas elas, no acaso de um momento.
Sempre o amor seria, porém, um outro mundo, evanescente, a flagrância do instante e sua cegueira, a essência perfumada e sua hipnose.
Poderia ter sido fome de corpo ou vontade de alma. Poderia ter sido todo o possível e o impossível.
Imperceptível, mesmo pelos que amam, poderia ser o desejo de ter nascido para te dar toda a vida vivida, descontado o sofrimento, mas não seria vida mas ilusão.
Excluídos todos os condicionais de todos os amores amados, todos os futuros de todos os amores que se amarão, como este é o amor presente como a estranha geometria do eterno sem fim, a insólita aritmética da perpétua indivisão!
No dia em que, esgotado o cosmos, ressurgir o primeiro sol, ele brilhará. A primeira lua será o ressurgir do seu resplandecente luar.
Surgido com a primeira lágrima, surgiu com o primeiro sorriso.
A ser a totalidade sempre seria a individualidade da infinitésima partícula e é. Esgotado o mundo ele seria o acto de renascer e eis-nos soerguidos.
Na visitação da noite, no fluir húmido de todas as rosas do teu corpo ele é o apogeu do primeiro homem e sua primeira mulher. Na entrega de cada acto ele é o desmaio da primeira vez, a primeira mão dada, o primeiro beijo, o primeiro olhar.
No mundo em que nada existisse ele seria, sendo, a essência e a possibilidade de tudo quanto vive, um amar como não sei e com tudo o que nunca soube.

08 janeiro 2011

O incómodo

Havia dias em que se sentava, aninhada, deixando desfilar pela sua mente cenas sobre o que tinha sido a sua vida. Cenas confusas, porque nada era nítido nem claro, imagens desfocadas, amalgamadas na sua sequência, atropelando-se, imparáveis ao sucederem-se, em aceleração constante, mais depressa, cada vez mais depressa. Cenas confusas, porque as que eram verdade do seu passado breve se misturavam, indistintas, com as que eram a fantasia do que gostaria que tivesse sucedido. Sentada na sua cama, escondida no seu quarto, sem cidade nem gente, sem si.
Foi assim que lhe surgiu a bicicleta, que em garota tanto desejara, e na qual voava agora, veloz, velocipedicamente feliz de tão contente, infantil e ria, o mundo de todos os outros sempre para trás, pedalando de deixando-se ir, o duro selim sentido ali e as pernas a cansarem-se, abandonadas, mesmo quando a corrente um dia se soltara, escorregadia de oleada, para se ensarilhara no pedal, conspurcando-lhe as mãos de modo tão real que ainda hoje o sentia, persistente e viscoso, como uma nódoa que lhe manchasse a existência.
Dias houve em que a possibilidade da bicicleta se tornara na impossibilidade de voltar a vivê-la como a sentira nesse tempo passado de promessas de vida em que o mundo lhe parecia o território de todas as eventualidades. E o corpo ausente.
Sofrendo essa indeterminação do presente e essa indiferenciação do passado, todo o tempo lhe parecia tempo futuro, todo o espaço pátria de devaneio.
Imaginou-se assim, a supor a vida como uma contínua antecipação, a visionar-se como uma intérprete que representasse a personagem de que era a figurante, tímida, hesitante, em constante espanto, espanto contraído por não haver surpresa diante do adivinhável que afinal se adivinha, mundo em que a biografia é como uma necrologia a precipitar-se no jornal que só o próprio lê, condoído de si.
Assim eram alguns dias recônditos de hesitante sol, dias de dormência e de sorriso, dias de visitação de doçura e de afago despontante, dias de atrevimento esconso.
Mas hoje chovia, chuva pertinaz, convicta, feita do acto de chover muito e muitas vezes e quase sem excepção, o céu povoado de ofensivas nuvens, aziagas nos seus presságios de relâmpagos, em que se liam azares e sortilégios, a ribombar descompassado o coração, e bátegas de malignidade, cruas como pontapés.
Foi aí que o viu, não pelo aproximar que a previniria, mas no próprio instante pavoroso em que o sentiu, ele e o seu peito, ele e o seu arfar, o hálito e os dentes, o pulsar vital e o abocanhá-la, a mão aprisionada, o suar e o arrepiar-se, fria, já não era ela ou outro mas uma alteridade estranha, estrangeira, que a dominava, subjugando-a, fazendo-a sucumbir, como se os intestinos se lhe revirassem e tudo quanto são entranhas e vísceras e o tumulto interior que são as catacumbas do corpo. Tremendo sonho, retesava-se num esgar de dores e de rejeição.
Um fio de água gelada escorria-lhe do cabelo, afundando-se pelo rosto, sucessivamente mais fria, o peito a eriçar-se de tão álgido, cortante, intimamente jorrado, liquefazendo-se a ensopar-se, escorrendo incomodidade e vergonha.
Vindo de si, como um choro contido num murmúrio, um clamor aflito, a chamar por socorro, uma revolta contra o mundo todo e contra aquilo em que se tornara, um fio imperceptível de vida conhecia, enfim, a sua existência, ungindo-a em sagração primaveril.
Sangrava pela primeira vez a inundície lodosa que a fazia mulher, nascia consigo a repelência que se tornaria o modo como não se reconheceria jamais em qualquer galanteio, o cinismo ácido com que receberia todos os adjectivos amáveis da língua simpática dos habitantes das terras da cortesia, os agraciadores indiferentes, os cortejadores amáveis. Repugnava-se de si mesma e do medo lunar do improvável momento.
Naquele dia impedir-se-ia de voar na sua bicicleta para não desobedecer às conveniências.
A Natureza sujara-a durante o sono, como a um palhaço a pintura, o rosto ridicularizado, menina a julgar-se feia, a boca sanguinolenta de tão vermelha, inchada de tão grotesca, o corpo o arrendondar-se de desejos e suas dores.

19 setembro 2010

A história de uma vaga sensação

E uma sensação de nostalgia invade o éter
Se o éter existe
E com ele o ronronar dos pés dormentes
e o mundo a ir-se
fluidamente;
e aquele pensamento
incómodo e reiterativo,
porque obsessão,
onde estarão as chaves do carro
e o próprio carro
e se eu não voltar aqui
para um mundo onde possa haver
a dormida esperança
e a dormente ilusão.

E uma sensação de enfermagem
e da inutilidade do órgão
a dispensabilidade da função
a urgência do acto.

No dia seguinte evaporara-se
Para a terra do coisíssima nenhuma
Se o a nada existe e com ele os pés enfim adormecidos.

12 agosto 2010

A personagem

Escrevia-os em improvisados papelinhos e entregava-os a quem fosse por causa da inesperada paixão. E livros seus que se imprimiram na tipografia económica, revistos ali mesmo, na velha mesa ao lado da caixa dos tipos de caixa alta e caixa baixa, a corpo oito e a corpo doze «não escreva a Times porque isso poupa papel mas cansa os olhos do leitor maçado» e desses livros sabe-se pouco porque nem eram muitos, «baixe a tiragem e poupe nas sobras».
E distribuía-os, mão a mão, percursos orgulhosos a pé, na ânsia de os conseguir vender e recolhia-os depois, envergonhadamente invendáveis.
Por atrevimento de carácter primeiro, por carência de afecto depois, fazia-os chegar aos amigos, o olhar ansioso de cão por festa, julgando que ao menos assim apreciassem quanto escrevia, discurso indirecto de gostarem da sua pessoa. Via-se na compulsividade do gesto a expectativa de um aceno.
Um dia surgiu-lhe assassina a dúvida quanto a saber se gostar seria bastante. Quem o leu tomou-o pela seriedade filosófica da questão que era, afinal, um apelo de alma vindo do mais longínquo da sua pessoa.
Iniciou-se então a obra que passou a ser a de uma outra personagem. Esgotado de esperar, deixara de ser o escrito tentando ser o escritor.